Viva a velhice! Era um grito que a rapaziada da minha geração gostava de apregoar na última metade da década de sessenta e na primeira de setenta.

Este grito era resultante da passagem à disponibilidade, depois do serviço militar obrigatório, que rondava aproximadamente trinta e seis meses. Neste caso o entusiasmo vinha mais das praças de pré, devido ao seu diminuto vencimento mensal de trinta escudos, que na moeda actual rondava os quinze cêntimos. Podem dizer que o dinheiro tinha outra valia, mas eu posso comparar, esses trinta escudos apenas davam para duas refeições numa casa de pasto e equivalia ao valor de seis maços de cigarros para quem fosse fumador.A velhice é uma característica de quem é velho, hoje referido como idoso ou sénior no vocabulário actual. Ora acontece que eu cheguei a velho, de um dia para outro deixei a idade do sorriso para entrar na velhice. Na idade que deixei eu contava sessenta e nove anos, o que devido à malandrice que o número tem, vinha com frequência um sorriso. Entrei nos setenta, o que por aquilo que tenho ouvido a grandes crânios da saúde, é o começar do fraquejo dos órgãos que sustentam o corpo humano.A evolução destas fraquezas não são iguais em todos os humanos, uns têm uma velhice de uns meses outros vão para lá das três décadas. Todavia é sempre a última etapa da vida, onde o povo evoca Nossa Senhora da Lapa, em que se diz que quem não foi de novo de velho não escapa. Uma das verdades que eu comparo às do senhor de “La Palice”.Mas deixem-me falar na minha velhice, onde acabo de entrar e não sei quando partirei. Estou certo e ciente que o comboio da eternidade, que é o que me vai levar já está em andamento, apenas sei que tenho viagem marcada, mas o calendário da viagem e o horário de embarque não estão em minha posse, como tal, resta-me passear no cais de embarque, que mais não é do que a minha vida actual que como dizem as nossas gentes, é laurear a pevide.Sou do tempo em que o velho era um senhor, recorria-se a ele pela sua tarimba, pelo seu saber, pois os livros ainda não tinham chegado com a devida noção de ensinar e informar. O mais velho na aldeia era como que um sábio, onde a ciência ainda não tinha chegado.Agora que eu estou nesse caminho e sei que muita gente me procura, não para ensinar, mas para opinar, permitam-me que goze a vida, pois sei bem que não tenho os dias contados para apanhar o tal comboio a que a devido tempo eu me referi.Eu sou dos que não quero ser idoso nem sénior, simplesmente velho, vem de família, onde tinha um avô que de nome tinha Henrique Ferreira, talqualmente o meu pai, daí a diferença entre velho e novo, era a diferente entre o jornaleiros ir trabalhar para o Henrique Ferreira velho ou para o Henrique Ferreira novo.Aqui estou eu para honrar os que já partiram. É à sombra deles que me identifico, dento e fora do concelho, e granjeio à sombra deles algum prestígio. Falo da minha velhice, onde eu queria que fosse airosa e prologada, onde pudesse estar eu e os meus e num ambiente onde conseguisse ser gaiteiro, fora de qualquer instituição aonde o avô fosse um dos mestres e um exímio contador de histórias. Nem tudo será possível, o poder divino impera! Estou certo que a minha crença  me poderá levar onde eu quero. Muito embora eu possa afirmar que nem tudo está ao meu alcance, se bem que eu possa dizer que é o meu sonho. Sonhar é um dom divino. Quem o impede?Mas os meus? Tanto que eles pesam na minha vida, tanto que me conduzem no meu modo de estar, eu tenho que vergar ao poder divino pelo método que me concedeu em estar perante a sua conduta.Espero que me tenham compreendido e sobretudo a entrada na minha velhice.Até uma próxima.