OS LIVROS NO CAMINHO DA HISTÓRIA


A palavra utopia apareceu pela primeira vez na obra “Utopia”, de Thomas Morus, publicada em latim, em 1516, sob o título completo De optimo Republicae statu, deque nova insula Utopia. A palavra foi composta pelo autor juntando o grego “Ou”, que significa “Não”, e “Tómos”, que significa “Lugar”. É, assim, um não lugar ou um lugar que não existe e define uma sociedade ideal cujos habitantes vivem em condições perfeitas sem os defeitos existentes na natureza humana.
A ideia de utopia é, mesmo em literatura, mais antiga que a ficção de Morus. Já consta na obra “Timeu”, de Platão, que a desenvolveu mais na “República”. A descrição idealizada de Esparta, que pode ser lida na biografia de Licurgo por Plutarco, também pode ser considerada literatura do género.
Também as lendas gregas, e as medievais nórdicas, célticas e árabes descrevem uma espécie de paraíso terrestre situado no oceano ocidental ou atlântico. É a lenda da Atlântida com várias interpretações. Após a epopeia dos descobrimentos, que trouxe “novos mundos ao mundo”, esta ideia decaiu na mentalidade dos homens mas a “Utopia” de Thomas Morus deu origem a uma nova moda: a de relatar a chegada de um viajante imaginário a um estado ideal e perfeito. O viajante imaginário que chega á ilha é Rafael Histlodeu, um português, conhecedor do latim e sabedor do grego na perfeição. A personagem foi inspirada da gesta dos Descobrimentos da época.
A Utopia designa, então, uma ilha imaginária onde a sociedade está de tal modo organizado que todos vivem em harmonia e labutam para o bem comum. Sob o governo do rei Utopus, os cidadãos não têm posses privadas. O princípio é o da posse comum e chegam ao ponto de trocar de casa, que é sorteada de dez em dez anos, para se evitar a ideia da propriedade individual e absoluta.
A paz reina na ilha. A intolerância é proibida e há igualdade de géneros. Todas as pessoas são livres para escolherem a religião, os recursos são distribuídos equitativamente e não existe propriedade privada. Contudo, cada casa possui dois escravos o que é contraditório com uma sociedade perfeita. O adultério e o sexo antes do casamento são ofensas severamente punidas e a privacidade é um conceito quase inexistente.
Na obra Thomas Morus apresenta uma sociedade que satisfaz a felicidade humana porque o passado da humanidade está repleto de tentativas falhadas para a alcançar.
No fundo, a obra é inspirada na realidade da época, apontando os caminhos, não impostos, que podem ser seguidos como eterna perseguição do mundo perfeito onde a dignidade humana triunfe.

O autor, Thomas Morus (1478-1535), de nacionalidade inglesa, foi uma das figuras que mais se destacou durante o Renascimento. Humanista influente, impôs-se pela qualidade intelectual e pelo empenho cívico, sendo um exemplo para os seus contemporâneos. Foi amigo de Erasmo de Roterdão, que lhe dedicou o «Elogio da Loucura», e que sobre ele escreveu: «É um homem que vive com esmero a verdadeira piedade, sem a menor ponta de superstição, tem horas fixas em que dirige a Deus as suas orações, não com frases feitas, mas nascidas do mais fundo do seu coração. Quando conversa com os amigos sobre a vida futura, vê-se que fala com sinceridade e com as melhores esperanças. E assim é Morus também na Corte. Isto, para os que pensam que só há cristãos nos mosteiros».

Extrato ilustrativo do livro:
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A ilha da Utopia tem cinquenta e quatro cidades espaçosas e magníficas. A linguagem, os hábitos, as instituições, as leis são perfeitamente idênticas. As cinquenta e quatro cidades são edificadas sobre o mesmo plano e possuem os mesmos estabelecimentos e edifícios públicos, modificados segundo as exigências locais. A menor distância entre essas cidades é de vinte e quatro milhas, a maior é de uma jornada a pé. Todos os anos, três velhos experientes e capazes são nomeados deputados por cada cidade e se congregam em Amaurota, a fim de tratar dos negócios do país. Amaurota é a capital da ilha; a sua posição central transformou-a no ponto de reunião mais conveniente para todos os deputados. Um mínimo de vinte mil passos de terra é destinado em cada cidade à produção dos artigos de consumo e à lavoura. Em geral, a extensão do território é proporcional ao afastamento das cidades. Estas felizes cidades não procuram aumentar os limites fixados pela lei. Os habitantes olham-se mais como rendeiros do que como proprietários do solo. Há pelos campos casas comodamente construídas, providas de toda a espécie de instrumentos de agricultura, e que servem de morada aos exércitos de trabalhadores que a cidade envia periodicamente para o campo. A família agrícola compõe-se pelo menos de quarenta indivíduos, homens e mulheres, e de dois escravos. Está sob a direção de um pai e de uma mãe de família, pessoas graves e prudentes.
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A quantidade de víveres necessária ao consumo de cada cidade e de seus territórios é determinada da maneira mais precisa. Não obstante, os habitantes não deixam de semear o grão e criar gado, muito além das necessidades do consumo. O excedente é posto em reserva, para os países vizinhos. Quanto aos móveis, utensílios domésticos, e outros objetos que não podem ser encontrados no campo, os agricultores vão procurá-los na cidade.
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