Não queria escrever este texto, mas não consegui saber não querer, porque a política está a ocupar-se de mim, de nós.

E de que maneira!... Por isso não posso ficar calado e não quero desbaratar o sacrifício que fiz, que todos fizemos, ao longo dos últimos anos.
Acabei de ouvir o Sr. Presidente da República. Apreciei a coragem das suas palavras, a clareza linear da argumentação, a responsabilidade política manifesta mas desgostei-me já de leituras distorcidas que começaram a correr por esses espaços virtuais ou reais, expressões que nada dignificam nem os seus autores, nem a Democracia, nem a República, e desconsideram a inteligência da generalidade dos cidadãos.
Quando há quinze dias aqui escrevi que a campanha eleitoral havia sido uma ocasião perdida por ter faltado o esclarecimento cabal e primado pela omissão sobre questões básicas e centrais da nossa vida colectiva, estava longe de imaginar que iríamos assistir, nos dias seguintes, aos malabarismos sofísticos mais lastimáveis. Sabendo nós que desde há muito a classe política tem vindo sistematicamente a descer na consideração dos cidadãos e constatando a elevada percentagem da abstenção, seria de esperar que ao menos fosse encontrada uma plataforma no entendimento das mensagens do povo deixadas nas eleições. O que, todavia, encontrámos foram tácticas soeses de conquista do poder a qualquer preço. Lamentava então – e lamento novamente - os professores e os alunos das nossas escolas que assistem na rua, e nas tribunas mediáticas, a estas lições de educação cívica.
Est modus in rebus, dizem os latinos. Tudo tem a sua medida, cujos limites não deveriam ser ultrapassados. Não pode valer tudo na política. Porque abrimos as portas à sabedoria clássica, aí vai mais um célebre ditado: Caput imperare, non pedes. Traduzindo: a cabeça é que deve comandar, não os pés. Andam por aí muitos pés que, de tanto querer o poder, esquecem-se de o pensar. Ou seja, se querer é poder, então importa primeiro saber querer. Mas isso parece a muitos não importar. É a República no seu melhor e o chico espertismo em todo o seu esplendor.
Felicito o Presidente da República pela coragem assumida. Para além das razões claras e objectivas na fundamentação apresentada para a atitude tomada, a sua decisão vai ao encontro do que nos parece ser a generalidade da opinião pública publicada ou encontrada nos espaços públicos. Mas não só. Líderes houve cujo comportamento não inspirava confiança. Aqueles sorrisos irónicos, aquelas expressões de arrogância manifesta e triunfalismo bacoco com que alguns líderes partidários saíram das audiências do Palácio de Belém, disseram tudo. Aqui, como em muitas outras situações do teatro no mundo da humana existência, uma imagem vale mais do que mil palavras.
Pobre República em que vivemos, tão tacanha na campanha eleitoral, triste e lamentável no teatro da comédia pós-eleitoral, destrutiva nos comentários dos responsáveis partidários após o discurso do Presidente da República. Porque será que os políticos da nossa praça continuam a não aprender com os erros do passado. Importa revisitar a nossa história e reavivar as memórias.
Lamentavelmente um líder andou nos bastidores a brincar às negociações e, com visível matreirice, aparece-nos em palco de comédia – deveria escrever tragédia – , a fazer dos cidadãos uns mentecaptos. Correu tanto com os pés que deformou a meta da corida política que é o serviço da res pública. E pela terceira vez – desculpem o exagero - me socorro dos clássicos: Rex eris, si recte facies - serás rei se agires com rectidão. Por legitimidade formal, alguém poderá evitar entrar por um porto seguro e optar por atracar nos rochedos da costa, e assim, eventualemnte, vir a alcançar o poder. Para o exercer, porém, dificilmente poderá ter a necessária autoridade moral, aquela autoridade que nasce das atitudes e dos comportamentos com que se adquire e alimenta a dignidade social e política. Será então a ética republicana no seu melhor.
O Sr. Presidente da República não apelou à dissidência dos deputados de qualquer partido, como alguns já vieram dizer. O Sr. Presidente da República deu mais uma oportunidade, talvez a última, para um pobre candidato a primeiro ministro poder lavar a cara e salvar a própria pele e a do partido que diz liderar. «É aos deputados que compete decidir, em consciência e tendo em conta os superiores interesses de Portugal, se o governo deve ou não assumir a plenitude das funções que lhe cabem.» A Europa está aqui.
23-10-2015