Quer sejamos panteístas, agnósticos, ateus ou crentes, a Quaresma faz-nos lembrar a urgência da procura de nós próprios.

Nunca como agora, a sociedade teve tanta necessidade de viver um boa Quaresma. A espiritualidade não é o monopólio das religiões. Mesmo se a espiritualidade “já saiu da esfera da religião”, como disse o filósofo, Marcel Gauchet, a mesma permanece no mais profundo do homem. A espiritualidade pode ser religiosa e, nesse caso, tende para a descoberta do que é maior que nós próprios, do que nos transcende — o Infinito do Amor, da Verdade, da Beleza. Os crentes dão o nome de Deus a esta transcendência última, pois relacionam-se com ele de uma maneira pessoal.Para alguns filósofos atuais, esta transcendência situa-se na horizontalidade, sem relação com Deus e, neste campo, tem-se situado uma grande parte do debate contemporâneo. Podemos perguntar se a Quaresma é uma velha tradição que tende a desaparecer ou uma prática a recuperar urgentemente? Na verdade, o confinamento encontrou-nos bem desprevenidos, pois as atividades que davam sentido à nossa vida reduziram-se ou quase desapareceram. Por isso, é necessário revisitarmos o nosso eu profundo. Talvez, nesta procura, constatemos a presença de alguma coisa maior e mais vasta que nós próprios, independentemente da maneira como a possamos denominar. Quem é que ainda nunca se sentiu invadido, no mais profundo de si mesmo, pelo sentimento de estar ligado àquilo que é maior que nós próprios?A prática espiritual não é a mesma coisa que frequentar uma confortável casa de chá ou um inebriante salão de ópio. É antes um combate, uma guerra contra o nosso eu superficial, um lugar de onde efetuamos as nossas escolhas e os nossos compromissos. O ser humano não é apenas um ente habitado por desejos, é também aquele que, através de um diálogo no interior de si próprio, pode verificar se os seus desejos são bons ou maus. Ter, querer e poder resumem as tentações com as quais estamos confrontados. Dois evangelistas descreveram-nos a tentação de Jesus no deserto que é um lugar despojado de tudo e onde temos, necessariamente, de olhar para nós próprios e assim podermos interrogar o nosso interior. Santo Inácio de Loiola, o fundador dos Jesuítas, converteu-se durante a sua longa convalescença, ao questionar o que se passava no mais profundo de si próprio, após a batalha perdida em Pamplona. O combate espiritual é tão brutal quanto a batalha dos homens; mas a visão da justiça é o prazer só de Deus, dizia o poeta Artur Rimbaud. E para o combate é necessário treino, exercícios frequentes. Lembremos que a religião muçulmana tem também a prática, bem rigorosa, de jejum no período de ramadão.Para resistir à tentação, as tradições religiosas propõem três meios: a oração, o jejum e a esmola. A oração procura haurir em Deus a força, a esmola leva-nos a desprender-nos dos bens materiais, fazendo-os circular através da partilha solidária e o jejum faz-nos recentrar o desejo no essencial, que nos leva a interrogar-nos sobre nós próprios. Que desejamos? Um ventre cheio ou um coração aberto no encontro com os outros e com Deus, em comunhão com a natureza?