Fui criado num tempo em que o acesso à informação era bastante condicionado.

Apenas chegavam aos nossos ouvidos as notícias que interessavam ao Poder instituído. Por norma davam grande entoação a tudo o que agradava, mas iam escondendo enquanto podiam tudo o que era inquietante, como as grandes tragédias, a corrupção desmedida, e sobretudo as simulações de assassinatos, para que herdeiros sem qualquer pudor pudessem obter proventos antes da data prevista pela existência de quem era dono e senhor dos valores em causa.
Hoje tudo mudou e é costume alguns canais televisivos em noticiários de horário nobre, e jornais na primeira página em títulos de caixa alta, abrirem com passagens do julgamento em que Rosa Grilo é acusada. Ora estamos a falar de um crime que nada conta para a vida dos portuguese e do serviço público em geral. Todavia esta senhora tem tido mais tempo de antena e páginas de jornais, que qualquer “Vulto” português que se destaque a nível mundial em prol da ciência e mesmo da paz.
Ora a comunicação social e sobretudo a televisão intoxicam a sociedade. Toda a gente quer tempo de antena, se isso não for possível pelas boas maneiras, recorre-se ao delito, pois para muitos o que é necessário é ser conhecido no Mundo nem que isso dê uns largos anos de prisão.
O que aqui estou a afirmar faz-me lembrar o monstro de Atouguia da Baleia, que na madrugada de dois e março de 1987, assassinou cinco jovens, mulher e filha, ficando apelidado pelo mata-sete. Este condenado, que ficou com a pena máxima e foi rejeitado pela família, quando saiu foi viver para Córsega, onde deixou este Mundo em vinte e nove de Dezembro de dois mil e dezoito.
Durante o tempo que cumpriu a pena, um pouco menos que os vinte e cinco anos, o Vitor Jorge, o nome do recluso que aqui temos em cena, ajuda à missa na prisão. Como era o sacristão da penitenciária onde estava, já era motivo para notícia. Outros que no gozo da liberdade fazem os mesmos levados pela fé, sem maltratar ninguém, não temos conhecimento que qualquer deles tenha sido tema de qualquer informação.
Mais recentemente e aqui pelas nossas bandas, em onze de outubro de dois mil e dezasseis, um tal Pedro Dias, também conhecido pelo piloto de Arouca, matou três pessoas e uma quarta ficou às portas da morte, donde se livrou pelas simples razão de que o assassino pensou que tinha a “vindima” feita e que ninguém mais poderia falar.
Este criminoso andou evadido vinte e oito dias, acossado aqui e ali pelas forças de segurança, até que a coberto de “capital” fez uma apresentação mediática às autoridades, vangloriando do seu feito, que foi ludibriar as autoridades. Também a sua condenação, que aconteceu no Tribunal Judicial da comarca da cidade mais alta teve uma cobertura como se dum “herói” se tratasse e onde se dava eco de tudo o que não tinha qualquer importância.
No entanto o “piloto” de Arouca voltou a ter tempo de antena. Correu mundo o seu primeiro encontro romântico no quarto do amor. Só faltou a transmissão em direto para dar mais glória a este “artista” do crime.
Com este baralho em cima da mesa leva-me a pensar que os autores destas malfeitorias começam a ter o seu clube de fãs e que as mentes mais doentias podem-se deixar cair no caminho delituoso, para que no entender dos mesmos se possam tornar figuras públicas, que no caminho mais correto não conseguiriam obter.
Por isso condeno certa comunicação social, pela ênfase que dá às notícias feridas de legalidade e tantas vezes se esquece de enaltecer aqueles que desinteressadamente vão promovendo uma sociedade mais justa alheia a conflitos de morte, pois como todos sabemos a vida não tem preço, e em muitos casos nem os esclarecimentos verdadeiros se conseguem obter.
Por hoje me despeço, virei depois do São Martinho, com castanhas e vinho!