Olhos nos olhos


Um antigo magistrado do Ministério Público contava que, tendo sido colocado, como Delegado Interino, em primeira nomeação, numa Comarca do interior e ainda sem qualquer experiência, logo imediatamente a seguir a ter tomado posse, fora chamado para presidir a uma acareação, A acareação, como o nome sugere, é uma diligência em que são colocados, frente a frente, testemunhas que oferecem versões contraditórias sobre os mesmos factos para se apurar, afinal, a verdade material. No decurso da diligência, um dos intervenientes, exaltado, lançou-se de repente sobre o outro e, acto contínuo, desferiu-lhe dois violentos socos na cara, deixando-o a sangrar.
O escriturário, que batia à máquina o auto, foi chamar o chefe de secretaria e o escrivão e, os dois, socorrido o ferido, aguardaram que o magistrado tomasse a decisão que, na sua óptica, o caso impunha.
O magistrado ditou sensivelmente o seguinte despacho: “Uma vez que o ora acareado fulano, ofendeu voluntariamente o acareado sicrano e que da agressão resultaram ferimentos, e uma vez que não pode ser julgado sumariamente, uma vez que não está presente o m.º. Juiz, determino que o agressor recolha à cadeia por vinte e quatro horas.”
A GN.R. veio buscar o homem, tendo o magistrado recomendado que, ao detido, não faltasse alimento nem agasalho.
O magistrado ficou incomodadíssimo com a decisão que tomara, revelando que, nesse dia, não conseguira jantar, a insónia não o deixara pregar olho e, na manhã seguinte, nem o pequeno-almoço conseguira tomar.
Da parte da tarde, volvidas as vinte e quatro horas sobre a prisão, o homem aparecera-lhe à porta do gabinete, de chapéu na mão, pedindo licença para entrar. Uma vez dentro, disse:
- Vim cá apenas agradecer a forma como V.ª Ex.ª me tratou. Foi uma lição para a minha vida, que jamais esquecerei.
Após a saída do homem, o magistrado ficou mais calmo e visivelmente surpreendido com o efeito correctivo da decisão. Mas, de súbito, ocorreu-lhe que ele era o responsável pelo estado do posto de detenção pelo que, de imediato, resolveu ir ver, com os próprios olhos, o estado em que o mesmo se encontrava. Dirigiu-se ao Posto da G.N.R e, após os cumprimentos, anunciou ao que vinha, manifestando a vontade de ver o posto de detenção.
- Aquilo é fraquito, - anunciou o Comandante - mas se V.ª Ex.ª quer ver, vamos lá.
Tendo descido por uma escada em caracol, chegaram a um aposento sujo, frio e sem luz que, na mente do magistrado, se lhe afigurava o local onde o Infante D. Fernando estivera cativo dos mouros, em Fez, segundo imagem do seu livro de História.
Ao ver aquelas instalações, o magistrado ficou branco, quase a ponto de desmaiar.
- V.ª Ex.ª não se sente bem? - Perguntou o comandante do posto.
- Pudera! - Respondeu o magistrado.
E, adivinhando uma terrível resposta, teve ainda força para perguntar:
- Foi aqui que o homem passou a noite?
- Qual homem? - Perguntou, por seu turno, o Comandante.
- Ora qual homem, aquele que você foi ontem buscar ao tribunal.
-Ai, não senhor, nem me lembrava agora dele. Se V.ª Ex.ª me tivesse dito que vinha cá por causa desse homem, nem tínhamos descido. – E prosseguiu o G.N.R.:
- V.ª Ex.ª desculpe. Eu conheço pessoalmente o homem há muitos anos e nunca fez mal a ninguém. Claro que V.ª Ex.ª procedeu muito bem, como ele é o primeiro a reconhecer. Mas olhe, veio o jantar da pensão da D. Micas, que era composto por sopa de couve branca, lampreia à bordalesa e até sobremesa, que era um pudim especial da casa. Tomou café connosco, bebeu do nosso brandy e como era uma noite calma e sem qualquer movimento, fizemos uma mesinha de sueca, ele, eu, o sargento e um praça que para aí estava. Ao fim da noite, ele confessou à gente que estava casado ia pra dezoito anos, que a mulher “é de gancho“ e que há muitos anos não sabia o que era uma noite de liberdade assim.