Outros aspetos a considerar

Para além da ponte aérea entre Portugal e Angola, achei pertinente apontar outros aspetos consequentes do êxodo de população fruto da descolonização angolana.Primeiramente, penso ser importante referir a criação do Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais (IARN), criado a 31 de março de 1975, ficando sob alçada da Presidência do Conselho de Ministros, e que, segundo Rui Pena Pires, “assumiu um papel fundamental no apoio dos retornados, visto que reduziu as tensões à chegada a Portugal”, para além de ter conseguido integrar estas pessoas na sociedade portuguesa.Depois, referir que houve entidades que procuraram ajudar durante o processo de descolonização, de diferentes formas, como foi o caso da Cruz Vermelha Portuguesa. Outro exemplo de auxílio veio por parte da Gulbenkian, que criou um programa onde era prestada ajuda “no alojamento durante três dias, alimentação, transporte para o lugar de destino definitivo e um pequeno subsídio em dinheiro”, sendo que seria preciso concorrer, e a seleção seria feita em conjunto com o IARN e a Cruz Vermelha Portuguesa.Do estrangeiro, para além da participação de países na ponte aérea, houve também quem prestasse auxílio de outras formas. Apontamos o exemplo da Suécia, que concedeu três milhões de coroas a Portugal, que serviriam para a compra de cobertores e “«outras coisas, tais como medicamentos»”, e também da Cruz Vermelha da Alemanha Federal, que entregou à Cruz Vermelha Portuguesa “2000 cobertores, 1500 sacos com artigos de higiene, 1000 pares de sapatos, 20500 peças de malha (vestuário para senhoras, homens e crianças), sacos para dormir, roupa interior, vestuário para crianças e para bebés”. Estes apoios chegavam derivado do conhecimento que havia das condições que muitos dos retornados tinham quando aterravam em Portugal. Muitas vezes sem alojamento, permaneciam no aeroporto da Portela por vários dias, havendo notícias que relatam o cenário existente. O Diário de Coimbra noticiou, por exemplo, que a maioria chegava “ao Aeroporto da Portela praticamente com a roupa que tem vestida, tudo deixado ficar para trás. Quanto ao Diário de Lisboa, referiu que os “retornados” vindos de Angola se aglomeravam no Aeroporto “sem qualquer assistência médica, pessoas doentes, animais vivos, bagagens, miúdos, durante horas ou até dias, dado que, devido ao sistema montado, não se sabem para onde dirigir”.Por último, penso ser pertinente abordar brevemente as ideias que surgiram em torno do conceito de retornado, e o modo como estas pessoas eram vistas na sociedade portuguesa. Segundo Fernando Pimenta, a designação de “retornado” surge sobretudo graças ao nome dado ao Instituto que tratou de gerir todo o processo de integração das pessoas que vinham das ex-colónias para Portugal, o IARN. Elsa Peralta refere que o termo “retornado” era utilizado num sentido pejorativo, “para identificar uma população, na sua maioria branca, subitamente deslocada” dos antigos territórios portugueses em África. Para Maria Meneses e Catarina Gomes, na sociedade portuguesa, o retornado era “classificados como colonialista, explorador” que vinha competir pelas reduzidas ofertas de emprego. Dada essa visão, o conceito de retornado impede que haja um maior debate em torno do mesmo, sobretudo em relação à “complexidade das construções e processos identitários de quem regressou”.A ponte aérea entre Portugal e Angola significou um êxodo significativo de população que quis fugir à guerra civil. Na fase de maior fluxo migratório, entre agosto e setembro de 1975, estima-se que entre “360 000 a 420 000 cidadãos teriam aportado nesses 2 meses” em Portugal. Segundo dados recolhidos pelo XII Recenseamento Geral da População Portuguesa de 1981, “de Angola teriam vindo 290 504 indivíduos, ou seja 61,6% do total” de deslocados das ex-colónias.Relativamente aos dois jornais utilizados durante este trabalho, é importante salientar o destaque que o Diário de Coimbra foi dando à situação dos “retornados”. Num Plenário dos Retornados do Ultramar, uma das intervenções foi no sentido de “apontar o «Diário de Coimbra» como um dos órgãos de informação que melhor” zelou pelos interesses dos “retornados”, tendo havido aplausos por parte da assistência. Quanto ao Diário de Lisboa, apresentou um menor número de notícias em relação à temática, tendo contudo apresentado informações de relevo para a elaboração deste trabalho.