A Ponte Aérea Angola-Portugal (I)

Contextualização: os motivos que levaram ao êxodo da populaçãoCom o 25 de abril e o fim do Estado Novo, uma das questões mais delicadas com que os governos seguintes tiveram de lidar foi com a descolonização, processo que até então vinha sendo adiado, optando, tanto António de Oliveira Salazar como Marcello Caetano, pela guerra contra os diferentes movimentos guerrilheiros que lutavam pela libertação dos respetivos países.No caso de Angola, foi decidida uma reunião com os três movimentos de libertação, tendo em vista o desenho daquele que seria o processo de descolonização do país. Por esse motivo, decorreram negociações no Alvor, durante cinco dias, de onde, a 15 de janeiro de 1975, saiu a decisão de se criar “um governo de transição, com um alto-comissário português e um colégio presidencial de três membros, um por cada um dos movimentos”. A juntar a isso, os três movimentos de libertação comprometiam-se a organizar eleições para a Assembleia Constituinte, momento que ocorreria em outubro desse mesmo ano.Com esta decisão, a população branca viu-se privada de poder tentar concorrer por um lugar governativo, e passou a ser “objeto de vexações, de violência e mesmo de ataques por parte de grupos armados”. Ainda antes das reuniões no Alvor, em dezembro, já várias centenas de portugueses tinham enchido as “gares do aeroporto, numa afluência desmesurada que gerou grandes confusões”.Posteriormente, à medida que o ano de 1975 foi avançando, o conflito ia aumentando, e parecia não ter fim previsto. A situação era extremamente delicada devido aos confrontos entre os três movimentos de libertação, fruto do “clima de tensão que é exponenciado pela sua recusa em deporem as armas”. A situação não era, de todo, pacífica. Elsa Peralta refere que se instaurou “um cenário de violência generalizada, com pilhagens, agressões, expropriações, prisões”.Em Luanda, a minoria branca acreditava existir “um grupo encarregado dos homicídios para obrigar à sua retirada”, fazendo com que temessem pela sua vida.Entre fevereiro e maio de 1975, Isabel Marques refere os motivos que levaram a um extremar de tensões: A confluência de vários fenómenos agudizaram de forma dramática a situação de anarquia em Angola: a disseminação de bandos armados que impunham arbitrariamente a sua lei pela coação, a expansão das confrontações bélicas entre movimentos – que de Luanda alastraram ao Norte e ao Leste e, na última fase, ao Sul do território-, a retirada dos contingentes das FAP de centros urbanos e a sua incapacidade de prevenção dos ataques a zonas residenciais.As notícias que nos chegam a partir de maio nos jornais que analisámos também demonstram o clima delicado vivido em Angola, onde se noticiou, num dos ataques, a morte “para cima de uma centena de civis, ferindo cerca de 700 pessoas, das quais trezentas se encontram em estado grave”. A situação de guerra não abrandou com o passar do tempo e, em julho de 1975, o Diário de Coimbra noticiou a eclosão de um tiroteio entre movimentos de libertação em Luanda, onde “segundo círculos hospitalares «morreram desde quarta-feira entre 150 a 200 pessoas»”.Deste modo, constata-se que o clima de medo instalado no seio da população branca em Angola fazia com que estes receassem pela sua vida. Ainda assim, muitos procuraram permanecer no país o máximo de tempo possível, e a sua saída não foi vista “como escolha mas como único meio de garantia securitária fora do território”.Assim, a maioria da população branca viu a fuga de Angola como única alternativa, e face aos inúmeros pedidos de ajuda por parte das pessoas, “as autoridades portuguesas decidiram evacuar por via aérea os portugueses residentes na colónia”, ou seja, todos aqueles que correspondiam aos critérios que estavam estipulados na Lei da Nacionalidade de 1975.