Histórias que a Vida Conta


Eram cinco irmãos e Mimi era a mais velha. Parece o início de um romance de Louisa May Alcott (“As Mulherzinhas”, 1880), mas não é. Passa-se na vida real e havia um rapaz no rancho. Mimi chamava-se na verdade Maria de Jesus e nasceu na Guarda em Maio de 1912, filha de Ricardo Garcia e de Maria da Conceição de Sena Belo Sacadura, meus avós maternos. Dois anos depois começava a Grande Guerra – que, infelizmente, viria a ser denominada a Primeira, pois que o vírus da discórdia e da violência viria a ressuscitar vinte e cinco anos mais tarde.
Infância e juventude passou-as com as irmãs no seio de uma família bem estruturada e crente. E o tempo chegou de pensar num futuro mais dedicado para si – o casamento seguindo as normas sociais em uso na época. E, aqui, o Destino foi-lhe generoso e amigo. Uma história curiosa que se passou assim:
No começo das férias de Natal de 1940, o meu Tio António Marques Fragoso, amigo de longa data de meu Pai, em viagem de Cuba, onde era Conservador do Registo Predial, para Cortiçô da Serra, sua terra natal, onde pretendia passar alguns dias com a Família, parou em Lisboa. Foi bater à porta do seu velho amigo Armando Marques, desafiando-o para irem tomar um copo e pôr a conversa em dia. Mas o meu pai estava convidado para jantar em casa dos pais da noiva – o casamento estava apontado para Janeiro ou Fevereiro de 1941. Lembrou-se, porém, de se fazer acompanhar pelo amigo. Telefonou para casa dos meus avós e explicou o que se passava à minha mãe, que imediatamente concordou com a ideia. Findo o repasto, e já na rua, o meu pai perguntou ao meu tio o que é que tinha achado da sua noiva. A resposta terá sido sensivelmente a seguinte: “É muito bonita e simpática, mas olha que aquela irmã mais velha – a morena – não o é menos”! Passaram dez dias. Findos os quais, o Tio António voltou a procurar o meu Pai, agora na viagem de regresso da Beira Alta para o Alentejo. Mas, desta vez, foi ele próprio quem tomou a iniciativa, sugerindo, um pouco a medo, que talvez pudessem ir jantar de novo a casa do Dr. Ricardo Garcia. Assim fizeram e aí terá tido início o namoro dos meus Tios. E o certo é que, após uma pequena dilação em relação ao enlace já aprazado, os dois casais viriam a contrair matrimónio no mesmo dia, em 19 de Abril de 1941.  
Casaram em casa dos meus avós, no salão transformado em capela para a cerimónia, depois de obtida a necessária licença eclesiástica.
O marido amou-a, acarinhou-a e respeitou-a em cada momento que viveram juntos. Ela foi a companheira extremosa e digna tal como prometera no altar. Tiveram três filhos. Ao mais velho levou-o Deus ainda bebé. Os outros dois – o Armando Jorge e a Maria da Conceição - cresceram e escolheram vida conforme os seus próprios gostos e oportunidades na plena liberdade de escolha que Pai e Mãe sempre lhes facultaram. E é a esta luz que mais me comove o retrato que a Tia Mimi nos deixou a todos.
Foi uma Senhora de uma dignidade e prudência irrepreensíveis que geriu o espaço familiar com uma intuitiva sabedoria evitando atritos abertos ou qualquer maledicência que os pudesse provocar. Sofreu duramente o desgosto da morte do Armando Jorge mas creio que acreditava sinceramente que voltariam a reunir-se no Céu. E, no seu comedimento, era uma mulher corajosa e possuidora de um sexto sentido que preservava com eficácia e bom senso a paz familiar e a dignidade de uma convivência cordata.
Lembro-me da Senhora exemplar que, em Beja, recebia no ambiente acolhedor e amável da sua casa, entre as suas coisas e recordações sempre primorosamente cuidadas. Ali reinava e era verdadeiramente feliz! Lembro-me dos tempos mais auspiciosos da sua vida, quando, esposa dedicada, a Tia Mimi se revia no homem admirável com quem casou e com quem viveu mais de cinquenta anos de amor e de momentos inesquecíveis.
Mas a imagem dela que gosto sempre de evocar é a de jovem Mãe, tal como aparece na fotografia que aqui junto, rodeada pelas suas irmãs e pelo cunhado – meu Pai - que muito a estimava. Foi tirada no nosso quintal da Guarda e enquadra com a maior felicidade a beleza das Senhoras presentes. Nela se vê, ao centro, o meu Pai, comigo nos joelhos e minha Mãe, vestida de branco, sentada a seu lado. Por trás dela, a Tia Mimi com o Armando Jorge ao colo. Do lado direito do meu Pai, a Tia Filomena e, atrás, a irmã mais nova, a Tia Clara, a única que agora nos resta, com os seus lúcidos e voluntariosos noventa anos feitos.   
Com o passar do tempo, ela viria a tornar-se para nós a “guardiã do templo da memória” e isso é um bem que se guarda com fervor e gratidão.
Para a minha Mulher, qua a acompanhou, com um verdadeiro amor filial, a Tia Mimi era a “minha menina”, porque, como a Maria Lúcia explica, “nós fizemos um pacto: esquecíamos os 100 e ficávamos só com os 2 restantes. Na via dolorosa dos seus últimos dias ainda conseguia fazê-la sorrir e essa foi para mim a maior das consolações”.
Partiu no passado dia 21 de Outubro, numa manhã de um verão tardio.
Dir-se-á que cento e dois anos são muito tempo para uma Vida (talvez demasiado, julgarão alguns). E sê-lo-ão decerto para destinos infelizes, mas foram para a Tia Mimi, recordados no seu todo, caminho de ventura e afecto. Foram, claro, como em toda e qualquer Vida, maculados por algumas duras provações (não há medida para a dor da morte de um filho), mas elas foram sempre sustentadas por uma piedade e uma conformação cristãs tão genuínas que são hoje para nós motivo de admiração e exemplo.
Por isso e pela saudade que nos deixou a recordámos no passado Dia dos Fiéis Defuntos mas a invocámos também com devoção no Dia de Todos-os-Santos.