Quem não conhece o soneto de Camões “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”?

Lembremos toda a primeira quadra: “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, / Muda-se o ser, muda-se a confiança; / Todo o mundo é composto de mudança, / Tomando sempre novas qualidades.”
“Continuamente vemos novidades”, assim continua o soneto camoniano. Vivemos eternamente na eterna novidade das coisas. Cegos que somos quando não a vemos. Ou será que não a vemos porque nela andamos e nela nos movemos? Como os peixes que vivem na água sem nada saberem da água.
Todos dias vou passando pela mesma rua. Pelas mesmas ruas. E quem há que não passe diariamente, ou com muita frequência, na mesma rua? Nas mesmas ruas. São tão as mesmas que até foi dado um nome a cada uma. Algum será o da rua onde mora cada um com os seus vizinhos que também passarão, diária ou frequentemente, pelas mesmas ruas. A caminho do trabalho, a passear ou simplesmente para respirar ar puro e arejar. Porque ainda há desse ar, na minha rua, na minha cidade, na minha aldeia. Passamos nas ruas a pé ou de um meio de transporte, tradicional ou mais moderno. De trotineta, de bicicleta, de automóvel, de autocarro ou de metropolitano. Engenhocas que o ser humano foi criando para dar trabalho aos pés. Ou para lhe dar descanso. Mas, nesse caso, quem passa nas ruas, não sou eu, não somos nós. São as rodas da técnica, singela ou sofisticada. De uma simples bicicleta ou de um metropolitano da última estirpe que vagueia, como a toupeira, nas entranhas da terra.
Mesmo quando passo a pé, na mesma rua, nas mesmas ruas, na minha rua, não sou eu que passo. É falso que eu passe. O que passa na rua são os meus pés. São eles que tocam o chão com a sola dos sapatos. E os meus pés, calçados ou descalços, não sou eu, são uma parte de mim. Nem sequer são uma parte de mim. Eu não sou os meus pés. Porque eu não sou um conjunto de partes entre as quais se encontram os pés. Eu transcendo sempre aquilo que digo serem os meus pés.
Mas nem os pés, que eu digo serem meus, passam todos os dias pela mesma rua, pelas mesmas ruas. Os meus pés ou as rodas de uma qualquer geringonça não passam todos os dias na mesma rua, nas mesmas ruas. Passam todos os dias nalguns pontos da rua que dizemos que é a mesma. Alguns pontos que nunca serão os mesmos. Os meus pés ou as rodas de um qualquer meio técnico, pisam sempre pontos diferentes. Por mais que eu diga, que nós digamos, que passo, que passamos, pelos mesmos pontos, pisando as mesmas calçadas, os mesmos passeios, as mesmas areias da rua. É tudo falso. Nunca passamos pelos mesmos lugares, nem pisamos as mesmas areias. São sempre outros os lugares por onde passamos. São sempre outras as areias que eu piso, que nós pisamos.
Nas ruas por que passo todos os dias, cruzo-me com gente que nem sempre é a mesma. Melhor, nunca é a mesma. Pessoas com que me cruzo, pessoas com quem falo ou não falo. Pessoas que me saúdam do outro lado e que eu saúdo do lado de cá. Pessoas que conheço ou julgo conhecer ou que, de facto, não conheço. Pessoas novas e cheias de energia que passam apressadas e me ultrapassam quase a correr. Pessoas de muita idade que parecem arrastar-se na subida da calçada. Pessoas vestidas com roupa de cores escuras. Pessoas vestidas de cores claras. Pessoas vestidas de muitas cores, de cores variadas. Pessoas com roupas de todos os tipos e feitios a dizer sim à moda ou que à moda viram as costas.
Quando passo pela minha rua passam muitos automóveis. Permanentemente. Pretos, cinzentos, vermelhos, alaranjados, de muitas cores. Nunca serão os mesmos, mesmo que os mesmos sejam. Nunca os mesmos carros, se são os mesmos, passam nas mesmas pedras da calçada, ou nos mesmos pontos das mesmas pedras da calçada. E mesmo que passem nos mesmos pontos das mesmas pedras da calçada, não passarão com os mesmos pontos dos pneus das rodas que rodopiam em movimento incessante e apressado.
Mesmo que fosse sempre a mesma rua, as mesmas ruas por que passo todos os dias, os mesmos pontos, as mesmas areias, o eu que passou ontem não é bem o eu que hoje passa. Eu sou outro a cada momento. Quando hoje passo pela mesma rua, pelas mesmas ruas, pelos mesmos pontos, quando piso as mesmas areias da rua, sou o outro do que ontem passou. Quando amanhã passar pela mesma rua, pelas mesmas ruas, já não serei o mesmo de hoje. Amanhã serei outro que o eu de hoje. O que sou eu, afinal? O que é o eu de cada um de nós? Saberá alguém definir-se na profundidade do seu ser?
A aparência e a realidade jogam às escondidas uma com a outra. As aparências escondem a realidade e a realidade sempre se vai mostrando através da aparência. A aparência é a forma por que a realidade se mostra, ou aparece. Se mostra e aparece para mim. Para cada um.
Não sei se poderei definir a minha rua pelos meus passos quando por ela passo, como canal a ligar os dois pontos que definem os meus movimentos. O ponto de partida e o ponto de chegada. Mas esses pontos nunca são os mesmos. Esses pontos são sempre outros. Ninguém conseguirá dizer, com total exactidão, onde começa a rua onde vive, o ponto em que acaba a rua onde se situa a própria casa, a casa que nunca é a mesma, apesar da mesmidade com que se manifesta.
Na minha rua, que não é minha e que nunca é a mesma, passam diariamente alguns autocarros e centenas ou milhares de automóveis por dia que, como já sabemos, sendo aparentemente os mesmos, são sempre outros a passar. Como em muitas outras ruas. Mas a minha é especial. Não é por ser a minha, mas por outra pequena grande coisa muito especial.
A minha rua, que não é minha, é uma rua alombada. Quem lá passa, fica a saber, se é que ainda não sabia, que a minha rua é uma rua de muitas ondas. Os automóveis passam sempre no mesmo sentido balançando e saltando na crista das ondas despertando os condutores mais dorminhocos.
A minha rua, que não é minha e que é sempre outra, é sempre a mesma na ondulação da calçada. Do seu piso a que aderem, sem descanso, os pneus dos automóveis. Alguns, conhecendo já, certamente, a perigosidade da ondulação, abrandam ou quase param a adaptarem-se ao ritmo ondular do chão da minha rua. Outros, desconhecendo a irregularidade das ondas, parecem querer voar e saltam empurrados pela força de um qualquer malfadado destino. Outros ainda, mais apressados, talvez, ou apanhados de surpresa na energia daquela onda gigante, voam e mergulham com estrondo no bojo da onda. Creio que alguns ficarão mesmo a pedir oficina.
Haverá, imagino eu, outras ruas como a minha que não é minha e que nunca é a mesma. Mas esta ondulação lombar das pedras da calçada mantém-se há muito na sua mesmidade real há muito enfeitada por cabos das telecomunicações abandonados ao pendurão ou anagalhados em qualquer espeto de um qualquer ângulo do casario. Como noutras ruas.
Retomo por isso o terceto final do soneto camoniano: “E, afora este mudar-se cada dia, / Outra mudança faz de mor espanto: / Que não se muda já como soía.”
Todos os dias passo pela minha rua. Que não é minha. A pé – volto a dizer - muitas vezes.
Todos os dias eu olho tristemente para aqueles permanentes ramalhetes de cabos negros e imagino a comunicação humana interrompida à força da tempestade diária de informações que se atropelam em insana concorrência.
Todos os dias eu vejo o movimento e ouço aquela mesmidade sonora de veículos a vencerem as ondas da calçada ondulada. Os tons e os sons poderão variar e nunca serão os mesmos. Mas sempre é a mesma aquela desafinação de tão metálica orquestra.
Já tenho pensado em escrever ao Mestre de Aviz e pedir-lhe que deixe a espada antiga da luta castelhana e se transmude em Mestre de Obras para a rua que tem o seu nome na mais alta cidade do reino, guardiã da histórica portugalidade.
Guarda, 14 de Setembro de 2022