Uma imagem vale mais do que mil palavras? Assim se diz.

Mas, na actualidade, em que os meios técnicos e tácticos disponíveis proporcionam a real possibilidade de criar imagens falsas, muitas vezes serão precisas mil palavras para as descodificarmos. Nestas situações mil palavras poderão ser poucas para trazer à superfície a dimensão da mentira.
Mas também é bem verdade que há imagens que, de tão belas, nos transportam para um mundo de transcendência, onde a beleza nos unifica com a verdade; aí, onde não há distinção entre os sentidos humanos, entre a palavra ouvida e a imagem vista; aí, onde ver é ouvir e ouvir é ver. Aí, onde o silêncio humano fala mais do que o mais delineado apalavramento da língua. É isso o que sinto sempre que entro numa daquelas igrejas medievais todas revestidas de pinturas ou de mosaicos bizantinos onde é tão grande a ingenuidade das linhas e perspectivas como a profundidade das mensagens.
Se estas imagens de outrora são também imagens dos tempos, há imagens que são do momento do tempo, do momento em que se fixa aquele instante único e irrepetível. É o caso da fotografia.
Não foram muitas as fotografias que tive a oportunidade de ver da última viagem do Papa Francisco a África, mas uma me chamou particularmente à atenção. Foi na Ilha Maurícia. É de lá que me chegou uma fotografia com Francisco, vestido de branco e no interior do papamóvel, a acenar a uma multidão de pessoas empunhando ramos de palmeira. Pessoas que mal se vêem, desaparecendo num mar de verde. Não há um cartaz, não há uma bandeira, só ramos de palmeiras se erguem escondendo os rostos de quem aclama o Papa vestido de branco.
A imagem explode em ressonâncias simbólicas e adivinha-se a alegria e o entusiasmo daquela gente, que se serve de um produto da terra, para aclamar o Bispo de Roma.
A imagem não deixará de trazer à mente a narrativa do Evangelho da entrada messiânica de Jesus em Jerusalém montado num jumentinho. Mas, se os ramos de palma da narrativa evangélica prefiguram a ressurreição para além da paixão e da morte, aquele mar de palmas erguidas ao alto bem expressa a «árvore da vida» daquela ilha Maurícia rodeada de praias em cujas areias, depois de beijarem o mar com recifes de corais, medram palmeiras altaneiras a tocar os céus. E o salmista parece ali entoar o canto do salmo 92: «O justo florescerá como a palmeira e crescerá como um cedro do Líbano… Na velhice dará grande fruto para proclamar que o Senhor é recto.»
A virtude poética do salmo não esconderá de todo a problemática que um qualquer leitor do salmo poderá levantar. Não causará estranheza que as palmeiras e cedros, árvores altaneiras e viçosas, possam exprimir o crescimento e viço do justo e o grande fruto da sua velhice. Mas não deixará de se estranhar no nosso mundo ocidental que o salmo cante o justo a florescer como a palmeira. Onde encontrar flores de palmeiras? Quem as poderá descrever? Mas elas, a seu tempo, lá estão no alto, bem ricas e exóticas, passando embora despercebidas a quem só vê o chão que pisa e não sabe olhar para a realidade das alturas.
As palmeiras, digamos, possuem uma espécie de educação que prima pela severidade do deserto, contrapondo-se à generalidade das plantas que exigem terrenos mais ricos e variados. Em contrapartida espelham robustez e perenidade temporal. Os justos são uma espécie de palmeiras que podem medrar nos ambientes aparentemente menos propícios à vida.
Rodeada de carvalhos, castanheiros e algumas árvores de fruto, na aldeia da minha infância não havia palmeiras. Tê-las-ei visto pela primeira vez desenhadas nalguma folha de papel de um qualquer livro ou jornal lá da casa dos meus pais. A primeira palmeira real que os meus olhos viram ainda lá está, resistente, altaneira e a tocar céu, ali no jardim do Largo Frei Pedro da Guarda, alinhada com o museu. Foi no meu exame da 4.ª classe, realizado, na década de cinquenta do século passado, na escola primária do Bonfim. Eu e os colegas de escola que, lá da aldeia, chegámos à Guarda pela primeira vez, ali ficámos, extasiados, a olhar para aquela palmeira já bem alta, pelo menos para a nossa pequenez de miúdos curiosos. Ainda hoje, quando ali passo, a observo como se fosse um pouco de mim. É minha primeira palmeira real!
Foi há quatro anos que a minha irmã Maria Augusta, a viver em Braga, me ofereceu um vaso com uma pequena palmeira. É uma Cica, também conhecida por Palma-de-Santa Rita e Palma-de-Ramos. Na terra do vaso que a transportava emergiam também já então dois pés de um cacto. O cacto cresceu e multiplicou os braços. A cica tomou ainda um conjunto de palmas no primeiro ano em que respirou o ar da Guarda. Depois as palmas foram perdendo a cor e secaram de todo. Julguei a cica perdida e cortei finalmente aquela folhagem seca. No vaso ficou o cacto, dono e senhor daquele pedacinho de terra.
Passaram dois anos. A cica não dava sinal de si. Estaria morta, certamente, e as suas raízes ali teriam ficado a alimentar aquele cacto bem resistente ao frio dos invernos guardenses.
Há meses, quando me dispunha a arrancar a erva malfazeja daquele vaso, fui encontrar – milagre da natureza! - umas pequeninas palmas a germinarem daquela terra com assinalável viço. E agora lá está ela a crescer muito lentamente, com as palmas rígidas, bem verdes e luzidias, a minha rica cica! Todos os dias a visito e todos os dias ela me lembra a perenidade, a imortalidade e a ressurreição.
A vida foi-me oferecendo a oportunidade de observar muitas palmeiras. Dizem-me que existem mais de duas mil espécies que medram em mil terrenos deste nosso planeta. Ouço então de novo o salmista cantar: «O justo florescerá como a palmeira».
Regresso assim à imagem fotográfica da Ilha Maurícia. Ali não há bandeiras, não há cartazes. Só enormes folhas de palmeira a emergirem das mãos invisíveis de uma multidão entusiástica. Mil palavras serão nada para traduzir a dimensão da sua mensagem.
Guarda, 19 de Setembro de 2019