A minha mãe não quer que publique este artigo

Nesta semana escrevi um texto sobre as eleições que tiveram lugar no domingo passado e pretendi mostrá-lo à minha mãe. Ainda hesitei, pois sei que ela não é nada dada à política. Mas é possível que houvesse alguma coisa que lhe agradasse.Minha mãe mostrou-se receptiva e disse-me:— Deixa cá ver, meu filho. Eu sei que escreves bem e gosto muito de ler o que escreves, mas raramente me deste a ler os teus textos antes de os publicares. — A mãe sabe bem que a maior parte das vezes tenho de os fazer à pressa e é à noite que tenho mais inspiração e, pela meia-noite, quando a mãe já está a dormir, envio-os. Eu gosto mais que a mãe os veja no próprio jornal. Assim vê o artigo do seu filho num jornal, com imagens e letra de imprensa que é mais fácil.A minha mãe sentou-se à mesa, colocou os óculos, virou as folhas para a claridade da janela e começou a ler. Eu sentei-me em frente dela e mal via o seu rosto, contra a luz solar, mas notei que que parecia não estar a gostar muito. Acariciava, de vez em quando, a cara com a mão direita, mexia o nariz com o dedo indicador. E eu a dizer para os meus botões: vais levar, certamente, uma rabecada da tua mãe.Estava à espera que voltasse a página, mas parecia que não arredava pé do meio da primeira folha. Lá veio a sentença.— Ó filho, tu não podes publicar isto. Tu não podes dizer mal dos nossos representantes, nem dos que ganharam nem dos que perderam. Tu não podes publicar isto, insistiu. Já viste o que dizes aqui: a Câmara tem-se esquecido da nossa terra. — Mas ó mãe, é verdade. Eu não posso dizer que que está tudo bem porque as pessoas não vão acreditar. Por causa disso é que há partidos da oposição, para contestar aquilo que os que estão no poder deviam fazer e não fazem. — Meu filho, se não fazem é porque não podem.Nunca vi a minha mãe assim tão peremptória. Pensava que confiava no seu filho e lhe deixava escrever o que ele pretendia.— Não, filho, não podes publicar isto.— Mas leia até ao fim.— Não é necessário! Na altura da campanha eleitoral vieram a casa todos os dirigentes dos partidos. Bem sabes que a nossa casa é aberta a todos. Se vais dizer mal da Câmara, o presidente já não volta mais a nossa casa. Quando aí passar vai fazer vista grossa e sou eu e o teu pai que pagamos as favas. Tu andas lá na capital e não te dás conta das vergonhas por que passamos. Como diz o teu pai e muito bem: para fazer política é necessário ter dinheiro e sabê-la governar. Tu podes saber governar a política, porque estudaste, mas não tens dinheiro. Bem. Não tenho outra solução. Esta semana não publicarei o artigo sobre as eleições. Tenho de respeitar os cabelos brancos da minha mãe que ficaria furiosa se, após esta reprimenda, não lhe obedecesse e fosse ler o artigo no jornal que lhe chega, todas as semanas, pelo correio.