No passado sábado o maestro Osvaldo Ferreira, ao dirigir a Orquestra Académica Filarmónica Portuguesa, deixou-nos as palavras que as artes têm a missão de despertar, inspirar e suscitar os sentimentos mais belos na vida de um, o que subscrevo.


Foi precisamente num ambiente de conflito, durante a Segunda Grande Guerra, que pela primeira vez, inicialmente a 31 de dezembro de 1939 e nos anos seguintes no primeiro dia de janeiro, que se concretizou esta mensagem musical de Esperança, Paz e Amizade. Através dos géneros musicais valsas, polkas, mazurcas, galopes, marchas e outros, num ambiente de música popular de salão vienense, emergiu o Concerto de Ano Novo com a missão de apaziguamento da dor, inquietação social alemã. Na época, o poder nazi não se importou de omitir a proveniência judaica da família Strauss, exímios compositores destes géneros musicais, para se fazer valer dos méritos nobres, belos e sedutores das suas composições. 
Diretamente da sala de espetáculo, Salão Dourado do Teatro Musikverein de Viena, Áustria, esta mensagem, através dos meios de comunicação como foi o caso da RTP 1 no passado dia 1 de janeiro, chega a meio mundo. Sob a batuta de Christian Thielemann, maestro alemão, soou o repertório escolhido para o concerto de Ano Novo de Viena deste ano. O maestro dirigiu este concerto pela segunda vez, tendo sido em 2019 a sua estreia. Realço que desde que terminou a Segunda Grande Guerra, nenhum outro maestro alemão voltou a dirigir a orquestra neste concerto, tendo sido Christian Thielemann o primeiro.
A Orquestra Filarmónica de Viena numa irrepreensível interpretação a que já nos habituou, continua com as suas performances, rigor, elegância e boa disposição a construir uma das histórias mais belas e profícuas do panorama musical europeu. 
Nesta linha, igualmente as orquestras nacionais fazem por criar ambientes análogos e provocar no público sentimentos nobres porém, devemos questionar se isso é alcançado. Na minha perspectiva o exemplo musical, performativo e pedagógico que foi dado pela orquestra académica portuguesa na nossa cidade, ficou muito aquém. 
No editorial anterior deste semanário local, foi feita uma exposição sobre a força da música tradicional. Herança cultural entranhada nos genes de um povo que na sua linguagem clara, simples e direta nos transmitem sem subterfúgios uma mensagem de temporalidade, genuinidade e afetividade que lamentavelmente descurado, por vezes até é suplantado por fracos modelos de erudição, que segundo me parece acabou por acontecer.
Devemos refletir. Contudo, um brinde à música.
Ludovina Fernandes