Foi no sul do Vietname no dia 8 de Junho de 1972. Passaram 50 anos.

A menina, agora com 59 anos, é embaixadora da UNESCO. Chama-se Kim Phuc. No passado dia 11 de Maio foi recebida pelo Papa Francisco no final da habitual audiência de quarta-feira. Presente também na audiência o vietnamita Nick Ut que ofereceu ao Papa Francisco uma das fotografias mais famosas do Século XX. Uma menina sul-vietnamita, de 9 anos, corre nua a gritar e de braços abertos a fugir do inferno das bombas de napalm que já lhe haviam queimado toda a roupa e a pele. A foto, com a menina de Trang Bang, o vilarejo onde o drama aconteceu, foi então baptizada com o nome “O Terror da Guerra” ou “Menina Napalm”. Um ícone trágico de todas as crianças do mundo que sofrem, inocentemente, os horrores da guerra.
Nick Ut trabalhava, ao tempo, para a agência “Associated Press”. Realizada a fotografia, abandonou a equipa e conduziu imediatamente a menina ao hospital mais próximo onde apresentou a credencial de imprensa e lhe providenciou um tratamento adequado. Foi a 8 de Junho de 1972. Na guerra do Vietname. Há precisamente 50 anos.
Famosa e terrível imagem. E importante também. Porque aquela imagem de crueldade brutal tornou-se, no mundo inteiro, uma força poderosa do movimento anti-guerra. Aquela menina sul-vietnamita, de 9 anos, é Kim Phuc e o fotógrafo é Nick Ut. Ela vive hoje no Canadá e ele, fotógrafo de Hollywood, vive em Los Angeles. Mas ambos vietnamitas e agora de viagem a Itália para uma exposição de fotografias de Nick Ut na cidade de Milão intitulada “From Hell to Hollywood” (“Do inferno a Hollywood”). Ali, em Milão, e também em Roma para entregarem ao Papa Francisco a tristemente célebre fotografia, a pensarem, certamente, na guerra de hoje que se abateu sobre a Ucrânia e nas mortes e ferimentos das muitas crianças atingidas por ela.
Não sei se estive suficientemente atento, mas o encontro destes dois protagonistas com o Papa Francisco levando-lhe, como presente, aquela célebre fotografia, de uma menina gravemente queimada a fugir horrorizada do bombardeamento, não encontrou grande eco nos meios de comunicação social portugueses. Talvez porque eles fazem entrar diariamente nas nossas casas imagens crudelíssimas da guerra na Europa, com atrocidades, devastações, pilhagens, e outros actos que até pensá-los causa horrores. Agora, em 2022, uma guerra em resultado da invasão da soberana Ucrânia por um exército às ordens de um inominável senhor sentado, impassível, nos salões dourados do Kremlin, em Moscovo. Por causa dela muitas lágrimas são choradas e com ela muitas vidas já foram ceifadas. De crianças, também. Mortas, feridas e deportadas, sabe-se lá para onde e por quê a para quê. E outras órfãs e a família desfeita.
A imagem daquela criança vietnamita está encarnada, passados cinquenta anos nas crianças ucranianas. Por irresponsabilidade dos adultos que não chegaram a aprender a lição das tragédias antigas, ou mais recentes, da História humana.
Quando a começou a guerra, aqueles campos e ruas encontravam-se brancos de neve. Antes de serem manchados com o sangue das muitas vítimas. E as imagens de bebés e crianças apanhadas na monstruosidade da guerra, numa maternidade bombardeada, em abrigos subterrâneos ou numa inimaginável viagem para um exílio forçado, começaram de imediato a correr mundo. Imagens de tragédia e da heroicidade de muitos, a começar por muitas mães, forçadas a deixar os maridos com beijos doridos e de crianças nos braços.
Os números trágicos destes meses têm chegado a nossas casas de várias fontes ao longo desta guerra. Nem sempre coincidentes e, bem o sabemos, a cada momento eles serão outros.
No passado 1 de Junho, Dia Internacional da Criança, a UNICEF, Fundo das Nações Unidas para a Infância, divulgou alguns elementos. Fala a UNICEF em mais de cinco milhões de crianças que precisam de ajuda humanitária urgente e que o conflito já provocou a morte de duzentas e sessenta e duas e ferimentos em mais de quatro centenas. “A guerra destruiu a vida de milhões de crianças”, resumiu a diretora executiva da UNICEF.
Os meios de comunicação social acabam de repetir o que já ouvimos mais vezes: morrem em média duas crianças ucranianas por dia devido à guerra.
Não sabemos como se encontrará aquela praça da cidade de Lviv, agora que já morreram por causa da guerra quase trezentas crianças. Já passaram muitas semanas. Naquele dia, daquela cidade ucraniana chegava ao mundo uma imagem singular. Que não voltei a ver. Como não tive outras notícias sobre ela. Naquela praça, sempre que chegava a notícia de que havia perdido a vida mais uma criança devido à guerra, mais um carrinho ou uma cadeira de bebé era ali colocada. Sempre vazios e bem alinhados a lembrar o alinhamento de sepulturas num cemitério bem cuidado em tempos de paz. Só que ali os tempos eram de guerra. Por isso esta sublime imagem da inocência ferida na flor da vida era também o choro infantil da condenação desta crueldade da guerra. De toda a guerra.
No início da guerra, estava a terminar o mês de Fevereiro. Era Inverno, e muitos daqueles campos encontravam-se ainda brancos de neve.
É bem conhecida a “Balada da neve” de Augusto Gil, o poeta que, nascido em Lordelo (1873), passou praticamente toda a vida na Guarda. Nesta cidade faleceu em 1929.
Será, talvez, o poema mais conhecido daquele poeta. Muitos saberão até de cor a primeira estrofe: «Batem leve, levemente, / Como quem chama por mim. / Será chuva? Será gente? / Gente não é, certamente / E a chuva não bate assim.» Alguns, embalados, com certeza, pelo encanto da brancura da neve a cair, serão capazes de recitar as três ou quatro estrofes seguintes. Mas não sei se serão muitos os que atendem bem à totalidade do poema, particularmente à segunda parte do texto poético. São quatro quintilhas. Talvez esteja aí a chave da balada.
Mais do que uma simples balada à neve, cuja brancura e leveza facilmente encantam o leitor, o poema de Augusto Gil será antes um canto dolente do humano sentir, de ternura dorida, perante o sofrimento das crianças, expresso ali, nos «pezinhos de criança», que, «descalcinhos, doridos», vão deixando na neve «traços miniaturais», primeiro, e, depois, «sulcos compridos, porque não podia erguê-los!» Valerá a pena lembrar o final da balada. «Que quem já é pecador / Sofra tormentos, enfim! / Mas as crianças, Senhor, / Porque lhes dais tanta dor?!... / Porque padecem assim?!...» E a balada termina com a tristeza a cair no coração de quem escreve. E, certamente, de quem lê. É a quintilha final: «E uma infinita tristeza, / Uma funda turbação / Entra em mim, fica em mim presa. / Cai neve na Natureza… / - E cai no meu coração.»
Guarda, 8 de Junho de 2022