RUA DO ENCONTRO

(Ficções da Guarda)No dia 5 de Maio, foi apresentado no pátio interior do Museu, o livro “Rua do Encontro”, compilação de 13 contos de autores nascidos ou com ligações fortes à Guarda. A iniciativa integra-se no âmbito da Candidatura da Guarda a Capital Europeia da Cultura 2027 e teve a coordenação do Prof. Thierry dos Santos, Diretor do Museu.«Com este projeto editorial, não só se presta […] uma homenagem à multissecular urbe com cunho sanchino como se oferec[e] aos amantes de literatura por ela atraídos um livro passível de lhes criar uma conexão emocional com os seus imaginários e cenários singulares.» Estas palavras do Sr. Diretor resumem, no essencial, o conteúdo da obra: criar uma ligação da cidade com os seus habitantes, ligação afetiva e social e histórica, obviamente. Os textos são de Ana Monteiro, Anabela Matias, Ângela Canez, António Moreira, Carlos Adaixo, Carlos Carvalheira, Carlos Galinho Pires, Cristino Cortes, Jerónimo Jarmelo, Jorge Carvalheira, Jorge Margarido, Maria Afonso e Teresa Martins Marques, englobando pessoas de várias gerações. A maioria destas 13 narrativas regressa ao passado quer individual, quer histórico para nos levar a percorrer vários espaços e tempos ligados à nossa cidade. Como referiu o Prof. Joaquim Igreja na apresentação, nenhum dos contos viaja para o futuro da cidade. Repensar a cidade projetando-a para o que há de vir, será tarefa para outras narrativas, talvez. É, então, um livro em que se entrecruzam personagens do imaginário citadino desde o seu fundador, D. Sancho, e dos seus amores paralelos com a Ribeirinha até personagens mais próximas de nós, do século XX por exemplo. “Oferece-se ao leitor um percurso pelo imaginário guardense, revelador de aspetos mais profundos da cidade beirã e potenciador de reflexões críticas acerca dos estereótipos que lhe estão associados”, no dizer do Sr. Presidente da Câmara, Carlos Monteiro. Significativo é o conto Os Fantasmas cá da Terra”, de Anabela Matias, onde se entrecruzam várias figuras do imaginário citadino, alternando entre os dois espaços sociais da Guarda, do século XX: o Café Monteneve e o Café Mondego.Em termos da narrativa, literariamente falando, temos um discurso quase sempre prosaico, mas há textos que cruzam a narrativa e a poesia. É o caso do conto referido acima, mas também dos contos de Ana Monteiro, Maria Afonso, Carlos Carvalheira. Há depois outros que entram pelo mito dentro dando-nos uma visão teatralizada da cidade como lugar de culto ou de desmitificação. Aí podemos inserir o conto “O Santo Sacrifício”, de Cristino Cortes, que nos recorda a “assistência” da juventude às cerimónias sagradas dos domingos. Pela contemplação exterior é bom de ver. Como não podia deixar de ser, a neve tem presença assegurada quer pela rememoração de brincadeiras infantis (Carlos Galinho Pires), quer pela presença irrevogável da “Balada” giliana. Também a época natalícia é revisitada (Jerónimo Jarmelo), ou a rua dos primeiros amores (Carlos Adaixo). A presença do R12, na cidade, não fica esquecida (António Moreira), assim como o ensino, nessa época menos boa do salazarismo, na visão da história oficializada nas aulas através do compêndio do Mattoso (Jorge Carvalheira), ou na pobreza muitas vezes “disfarçada” nos amores impossíveis das aldeias (Teresa Marques).Há ainda um toque de aproximação ao presente em 2 contos, narrativas singulares nesta coletânea a juntar á já referida de Ana Monteiro, que nos dão simultaneamente uma visão diferente da cidade sanchina. Refiro-me à narrativa de Ângela Canez que contrapõe a Dra. Matilde da cidade alta ao Quim da zona da estação, lavador de louça num restaurante francês. Inconciliáveis?  Física e socialmente, sim. Por fim, em “Detalhes e Bohemia” (Jorge Margarido) vemos a intrusão do turista na cidade e o regresso inadiável, mas sempre repetido. No espaço simbólico entre a Guarda e Vilar Formoso.Termino este aperitivo de leitura, porque vale mesmo a pena ler este livro, com as palavras de Helena Rebelo no posfácio: «A Guarda é uma cidade histórica e, nela, muito há para contar dos séculos passados ao presente porque o futuro está aí à porta e precisa de lembranças. É o que esta compilação de contos faz, uma vez que possibilita guardar um património literário, cultural e linguístico comum.»