1. Mário de Carvalho é repetente! Esse inaudito abusador das palavras repetiu o prémio Camilo Castelo Branco este ano. Já o tinha saboreado em 1991, com “Quatrocentos Mil Sestércios” e volta à liça com “A Liberdade do Pátio”. Peixe na água. Domina o conto como nenhum outro autor da atual literatura portuguesa. A técnica da escrita aliada a um domínio quase perfeito da língua excelentizam-no.


A sua obra mais conhecida é “A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho” lecionada no 3º ciclo durante largos anos. Mas a narrativa de “Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto”, “Um deus passeando pela brisa da tarde” deram-lhe notoriedade no mundo do romance. Expande nestas obras a capacidade de contista. “Contos Vagabundos”, “Contos da Sétima Esfera”, “Contos soltos” são outros livros do autor dedicados ao pequeno texto. Para ele, a “literatura tem a função de despertar as palavras adormecidas” e renega um escritor que não seja um frequentador fiel do dicionário. Segundo António Mega Ferreira, Mário de Carvalho “é um dos maiores inventores literários da escrita contemporânea em língua portuguesa. Escrever é para ele, acima de tudo, tornar viva e sensível a língua que nos foi dada e que, por nós reelaborada e enriquecida, ressurge no texto novo com a frescura de uma rosa colhida agora mesmo.” (Jornal de Letras, nº 1097) Referência obrigatória no campo das letras é um autor a ler para enriquecer vocabulário e conhecer uma época de transição entre o escrever para a gaveta, ou melhor, para a clandestinidade e o escrever livremente as ideias que fervilham nas mentes eleitas pelas musas da escrita capaz de mudar pensamentos.
2. Patrick Modiano. Confesso: nunca li uma linha deste autor. Por aquilo que se ouviu e leu, é alguém que adora a escrita desde cedo e que a considera um acto natural o que é uma boa referência para apreciarmos a sua obra. Considerado o maior escritor francês vivo, foi escolhido pela Academia Sueca porque a sua “arte da memória evoca os mais inefáveis destinos humanos e desvela o mundo da ocupação”. Na sua obra, são recorrentes os tópicos da memória e da ocupação alemã e está profundamente marcada por uma história pessoal feita de perdas e ausências.
O autor nasceu em 1945, filho de uma actriz belga e de um italiano de origem judaica que viveu a ocupação nazi com uma identidade falsa e protegido por personalidades influentes. Não tendo vivido a segunda grande guerra, Modiano fez desta um tema recorrente na sua obra. O pai esteve muito tempo ausente e a mãe também não partilhou muito da sua infância com o filho, compartindo esse tempo com o irmão Rudy, com quem viveu em Paris na casa dos avós maternos. A morte deste irmão, com apenas seis anos, destruiu a infância de Patrick Modiano e fez com que os temas da perda, da ausência, do vazio, da identidade fragmentada, viessem a ser dominantes na sua obra. A sua adolescência não foi menos conturbada, mas durante ela encontrou apoio num amigo da mãe, o célebre escritor Raymond Queneau, que lhe deu aulas particulares, o introduziu nos meios literários e o apresentou aos responsáveis da editora Gallimard. Vive em Paris, ainda hoje, fechado um pouco no seu mundo e tem duas filhas: uma realizadora de cinema e outra cantora e escritora.
A sua obra estende-se por cerca de trinta romances e vários argumentos para cinema quer adaptações de obras suas (“Lacombe Lucien”), quer originais. Trabalhou, na célebre crise de Maio de 68, como jornalista para a Vogue e é deste ano o seu primeiro romance “La place de l’Étoile”. Em 1978, recebeu o prémio de prestígio Goncourt pelo livro “Na Rua das Lojas Escuras”, publicado no nosso país pela Relógio d’Água. Trata-se pois de um autor conhecido internacionalmente, mas nunca foi um autor popular especialmente pela sua escrita a que a crítica francesa chama ‘la petite musique de Modiano’, e pela sua obsessão com o tema da memória.
Para aguçar o nosso apetite de leitores fica um excerto do livro acima citado “Na Rua das Lojas Escuras”: “Deu-se então em mim uma espécie de estalido. O panorama que se avistava daquele quarto provocava-me um sentimento de inquietação, uma apreensão que eu já conhecera. Aquelas fachadas, aquela rua deserta, aquelas silhuetas de sentinela no crepúsculo perturbavam-me à maneira insidiosa de um perfume ou de uma canção outrora familiares. E tive a certeza de que muitas vezes, àquela mesma hora, ficava ali, imóvel, à espreita, sem fazer o mínimo gesto, sem ousar sequer acender a luz. Quando tornei a entrar na sala, julguei que já não havia lá ninguém, mas afinal estava a dona da casa estendida no banco de veludo. Dormia. Aproximei-me silenciosamente e sentei-me na outra ponta do banco. Uma bandeja com um bule e duas chávenas, no meio do tapete de lã branca. Tossi um pouco. Ela não acordou. Então, deitei chá nas duas chávenas. Estava frio.”