Hoje decidi falar de uma embaixada que visitou a minha cidade, a Guarda.

Ali pernoitou e no dia seguinte, que foi de descanso, permitiu a todos aqueles que tiram prazer do pedal darem umas voltas devidamente escoltados. Aconteceu um facto inédito pois a finalizar com um repasto bem composto, nada melhor poderia acontecer aos participantes que se gloriaram pelo seu amadorismo.Estou claramente a falar da volta a Portugal em bicicleta na sua edição nº 82, que por estas bandas teve o condão de chegar à Guarda, onde tinha o final da etapa, passando por localidades nunca antes conhecidas através de subidas e prémio de montanha para onde nunca se pedalou.É de minha lembrança como se vivia a volta em meados do século passado, pois era uma festa e toda a gente vinha saudar os ciclistas, quer pelo seu esforço, quer pela clubite dos espectadores que criava sempre rivalidade entre os fortes aplausos que se distribuíam.Sou desse tempo e com a sorte de ser criado onde hoje moro, junto da E. N. 16, onde era como que obrigatória a passagem da volta. Nesses tempos como não havia os acessos para outros locais como agora, a Guarda era sempre o ponto mais elevado da prova, de modo a que a etapa da Guarda fosse considerada como a rainha da prova e se esperasse sempre pelo que conseguia o rei da montanha.A chegada à cidade da Guarda tinha dois itinerários marcados, ou vinha do lado sul pela EN nº 18, onde tinha certa ebulição no alto de Santa Cruz, ou entravava através da EN nº16, em que o ponto mais quente era ao cimo da rua 31 de janeiro, seguindo pela rua do comércio e Alves Roçadas até à meta que por noma nesse tempo ficava situada frente ao Governo Civil. Nesses tempos a camisola do clube pesava muito no coração de cada adepto, como muitos nunca tenham saído de cá, para eles era uma festa idolatrando os seus ciclistas. Embora não fosse do meu tempo, lembro-me de ouvir em pisas de vinho entoar cantigas sobre os reis do pedal. Estou aqui a falar da rivalidade Benfica – Sporting, onde havia dois ídolos, Nicolau e o Trindade, respectivamente. Também ouvia um tal refrão “todos corriam, sempre atrás dela, foi o Faísca que foi ganhar a amarela”.  Aqui estou a falar do mangualdino José Albuquerque, que tal como os outros dois que aqui citei ganhou duas voltas a Portugal.Já comigo na adolescência aconteceu no ano de 1963, aqui por as minhas bandas uma cena que deve ser contada. Na etapa que se dirigia para a Guarda, numa fuga composta por vários ciclistas, entre os quais o ídolo benfiquista Peixoto Alves e do outro lado o maior João Roque com o emblema de leão ao peito. Até à chegada do carro da vassoura os apaixonados começaram a alvitrar aquele que se destacaria na subida do Porto da Carne até à Praça Velha e claro vencer a corrida. Houve dois, cada qual de seu lado, como é evidente, resolveram formalizar uma aposta. O montante seria o pagamento de duas cervejas que seriam bebidas na devida oportunidade, pois no alto que escolheram para ver não havia onde.Ao tempo o valor era significativo, quase meia jorna de trabalhador rural. Ora quem ganhou a etapa na Guarda foi o Peixoto Alves. Estes dois amigos estiveram uns dias sem se encontrarem, quando aconteceu cada qual chamava a razão a si, uma vez que o Peixoto Alves tinha ganho a etapa na Guarda, por outro lado o seu opositor queria a razão para si, pois alegava que aposta foi feita com intuito de apontar o vencia a volta e que neste caso foi o João Roque. Não houve entendimento e o resultado, como diz o nosso Povo, ficou tudo em águas de bacalhau.De minha lembrança, a volta a Portugal apenas saiu das linhas de fronteira um ano, entrou na Galiza, onde teve metas em Vigo, La Toja e Santiago de Compostela, foi na edição 28ª no ano de 1965.Nessa volta o ciclista Peixoto Alves deu um grande brilharete, ganhou a etapa de La Toja, vestiu a amarela, conservou-a durante as catorze etapas que se seguiram até Lisboa, ganhou a volta e deixou o João Roque a mais de um minuto.São recordações que guardo. Não sei se nesta prova algum ciclista cometeu semelhante proeza.Fiquem bem, até dia de Santa Eufêmia! Data marcante na minha terra, tanto na Fé como na economia.