A imagem repete-se por Portugal inteiro.

Por todo o lado há obras incompletas ou sistematicamente adiadas. Ou anunciadas e que se encontram, há muito, na sala de espera. E a realidade parece possuir raízes na nossa História. É lembrar as Capelas Imperfeitas, porque incompletas, do Mosteiro da Batalha ou o novo aeroporto de Lisboa, passando pelo Panteão Nacional que, na linguagem popular, foi fazendo história. Com outro nome, embora. Um nome inicial que vem de longe.
Falar de obras “como as obras de Santa Engrácia” - toda a gente sabe - é falar de algo que se arrasta indefinidamente, que demorará muito a acontecer, se é que alguma vez chega a acontecer. Como as necessárias reformas estruturais dos grandes sistemas públicos portugueses de que tanto se vem falando. Desde há anos.
Em Lisboa, a primeira pedra foi lançada em 1682 e a obra só foi terminada em 1966. Foi uma demora de quase 300 anos. Mas a sua história começa ainda mais cedo. Mais de 100 anos antes.
Foi em 1568 que se iniciou a construção de uma igreja no local de um templo do Séc. XII, assim rezam as crónicas. A iniciativa pertenceu a D. Maria de Portugal, filha de D. Manuel I. Pretendia a princesa uma igreja que pudesse receber condignamente o relicário da mártir Santa Engrácia. Segundo uma lenda a obra ficou logo de início amaldiçoada em razão de um amor impossível entre uma jovem, Violante de nome, filha de um importante fidalgo, e um cristão-novo, Simão Pires Solis, que viria a ser acusado de roubar o relicário. Depois, o edifício viria a sofrer graves desacatos em 1630 e profundamente danificada por um grande temporal em 1681. No ano seguinte é lançada a primeira pedra do actual edifício que, passando por vicissitudes várias, incluindo o terramoto de Lisboa, só viria a ser terminado, no tempo de Salazar, em 1966, como Panteão Nacional. Ou seja, 300 anos depois do lançamento da primeira pedra e 400 anos após a construção da primeira igreja da iniciativa de D. Maria de Portugal.
Não conheço grande coisa da vida de Santa Engrácia, mas sei que, graças à construção da Igreja de Santa Engrácia em Lisboa, ela passou à História da maneira que todos sabem. Obras de Santa Engrácia são aquelas que se arrastam no tempo ou ficam no esquecimento dos deuses; obras que são anunciadas com pompa e circunstância, mas que o vento rapidamente leva e faz esquecer; obras que são iniciadas, mas logo interrompidas e abandonadas ou à espera de um novo recomeço; obras que mudam de rumo pela força dos ventos políticos, esses ventos tão efémeros como variáveis são nas pétalas da rosa, que se diz que é dos ventos.
A Guarda não foge à regra. Também anda por lá Santa Engrácia. Algumas obras serão tão de Santa Engrácia no sentido forte que parece andarem de mão dada com a fraqueza da memória dos homens que, como se diz, é muito fraca. É que há obras de que já nem se fala, tão abandonadas têm andado ou já sepultadas de todo no esquecimento. Na Guarda poder-se-á não conhecer a vida de Santa Engrácia, mas que tem devotos na cidade, disso parece não haver grandes dúvidas.
Confirme-se o sobredito com alguns exemplos. Só alguns, porque há outros.
Exemplo número um - Há tempos foi noticiado que a Câmara Municipal havia adquirido o edifício da antiga Casa da Legião, já há muito num estado lastimável a ensombrar a Catedral. O edifício, devidamente recuperado, destinar-se-ia à instalação de um Museu de Arte Contemporânea com as obras da colecção de António Piné. Recentemente a Câmara Municipal decidiu realizar consulta pública sobre o futuro daquela casa em ruínas. Oxalá esteja enganado, mas creio que Santa Engrácia vai ter aqui alguma paciente intervenção para fazer jus à inspiração criadora dos munícipes.
Exemplo número dois - Há quase um ano foi lançada, com pompa e circunstância, a primeira pedra para a requalificação do jardim do Largo Frei Pedro da Guarda. Foi no dia em que este frade franciscano teve honras de festa para se apresentar de painel restaurado com que a Guarda o recorda. Ou deveria recordar, porque o painel encontrou-se, em espera de restauro, dezenas de anos abandonado e maltratado. A pedra memorial da requalificação do jardim foi selada e enterrada com a participação de autoridades religiosas, civis e militares. Eu também estive por lá e assisti ao solene acontecimento. Só que nunca mais se ouviu falar em tal e o pobre franciscano ali se encontra à espera de poder fazer companhia a S. Francisco de Assis na sinfonia da natureza florida.
Exemplo número três – O antigo Hotel de Turismo, situado bem no centro da cidade, fechou há 12 anos e, desde então, procura novos donos, mas parece andar perdido nos labirínticos percursos administrativos e concursais. Ou, então, ninguém o quer. Entretanto, de dia para dia, ali se encontra, para vergonha da terra, em acentuado estado de degradação, a servir de hospedagem à bicharada. Dizem por aí que o enguiço actual prolonga as vicissitudes de todo o processo com que nasceu, se ampliou e se deixou ultrapassar no tempo. Se por falta de visão estratégica local, por falta de ousadia e coragem empreendedora, se por falta de recursos financeiros ou se por excesso de tricas políticas, diga Santa Engrácia o que achar da sua justiça. Mas diga-o muito em breve, porque também «muito em breve» haverá novidades sobre o imóvel, segundo promessa recente da Senhora Secretária de Estado do Turismo, Comércio e Serviços.
Exemplo número quatro – Bem perto da estação de caminho de ferro foi montada uma estranha estrutura. Estranha, para quem não conhece a história. Destinava-se ela à instalação de uma locomotiva antiga nos carris que a encimam. Destinava-se - não sei se ainda se destina. Seja como for, ali está a obra, há já algum tempo, e a histórica máquina tarda a chegar. E já não se sabe se chegará. Diz-se por aí. Tenha lá Santa Engrácia paciência com os humanos destas terras beirãs.
Exemplo número cinco – Diz-se que a Guarda possui uma via de cintura externa. É a VICEG. É via, mas não chega a ser cintura. Também para o ser, bem precisa Santa Engrácia de ser rezada para uma obra há muitos anos esquecida. Quem fizer o percurso dessa via ficará desapontado com a situação em que ela se encontra nas imediações do quartel dos Bombeiros Voluntários. Claramente ali é interrompida e ali se encontra a solicitar prolongamento desde que aquela via abriu ao trânsito, há mais de dúzia de anos. Mas, curiosamente, já nem se ouve falar em tal. Um dia, ouvi um antigo vereador afirmar que a VICEG estava já terminada. Demos, então, uma gargalhada bem sonora. Santa Engrácia bem merece uma estátua naquelas falsas saídas e entradas de cinturas imperfeitas.
Exemplo número seis – Vivo na Guarda há dezenas de anos. E, de vez em quando, ouvia falar no prolongamento da Rua Nuno de Montemor que, com início nas instalações da Polícia Judiciária, haveria de terminar no jardim central da cidade, junto ao Lactário Dr. Proença, instituição criada por aquele escritor. Diz-se que aquela rua foi assim nomeada, em tempos idos, precisamente por isso. A entrada do teatro municipal - TMG - ficou virada para essa rua do futuro que continua a ter a protecção de Santa Engrácia. Dizia-se que a GNR aguardava a construção de um quartel noutro lugar mais adequado às suas funções. Mas eis senão quando, ali, à entrada dessa rua do futuro foi recuperado um edifício para o Comando Territorial da Guarda da GNR. E eu a acreditar nos entendidos a dizerem que uma estrutura desta natureza deveria situar-se próxima de uma via de maior fluência. Creio que Santa Engrácia terá dificuldade em entender esta mudança de agulha, mas não lhe faltará a paciência necessária por continuar a proteger a Rua Nuno de Montemor, a dignificação do TMG e as futuríssimas instalações da GNR.
Terminemos em beleza. Com a bênção de Nossa Senhora do Mileu, a requalificação do conjunto histórico do seu Santuário já terminou. Com a bênção de Nossa Senhora dos Pastores da Estrela, os Passadiços do Mondego já se encontram, quase, à disposição dos amantes da natureza. Esperando que Santa Engrácia não se intrometa no caminho da esperança, com a bênção da Padroeira Senhora da Assunção já foi adjudicada a obra para a instalação de um órgão de tubos na Catedral. Em Novembro de 2023 haverá concerto jubiloso, Te Deum solene e missa cantada. Haja festa.
Guarda,6 de Julho de 2022