Pontos de Vista


Confesso que, não sendo por aí além frequentadora da cozinha, tenho alguma familiaridade – pacífica, aliás – com facas e alguidares.
Sendo, por outro lado, estudiosa da língua falada dos portugueses/as dos tempos que correm, com especial incidência no dizer espontâneo de coloração familiar, conheço e por vezes também uso, a expressão de faca e alguidar.
Penso que ela é de conhecimento geral, e o seu emprego não levanta qualquer interrogação sobre o sentido e a intenção de quem a utilize. A mim, assim numa primeira e descontextualizada abordagem, a faca e o alguidar, assim juntos, remetem-me quase instantaneamente para a matança do porco que, logo a seguir ao Natal, se costumava fazer em casa de meus pais. E digo-vos que não é uma boa recordação: degolar o bicho (a faca) recolher o sangue (o alguidar), juntar a miudezas e as partes do animal esquartejado (faca e alguidar em conjunto) e, mais tarde, recolher os enchidos, as tiras de toucinho para a salga, as peças para consumo imediato, etc. (o alguidar), davam-me uma sensação de carnificina tão viva que fugia para o campo logo que via o pobre do suíno assomar ao fundo do pátio… E talvez essa associação esteja de tal modo generalizada que, sendo uma faca e um alguidar, objectos de uso comum e familiar, diria até de primeira necessidade na vida doméstica, quando irmanados na expressão de faca e alguidar, logo implicam uma qualificação belicosa, para uma discussão, uma quezília, um conflito aceso, uma qualquer algazarra que se levante no âmbito familiar, alimentando cenas de foro doméstico, entre um casal ou (pelo menos duas) pessoas da mesma família. Na maioria dos casos sem testemunhas, numa luta cega de raiva e dor em que saem à liça as armas brancas mais caseiras num confronto físico sangrento que, de um modo geral, acaba mal para uma das partes, quando não para as duas… Por isso, a expressão se associa facilmente a turbulentas histórias de amor e ódio, a crimes de honra, a misteriosos enredos escritos a sangue e mistério que recheiam a literatura policial, as novelas televisionadas que invadem os nossos lares, atulhando de agressividade os nossos tempos supostamente de recreio…
Mas não é de todo de literatura ou ficção que hoje vos venho falar, à sombra da supracitada expressão.
É da vida real. Das histórias “de faca e alguidar” debitadas pelos noticiários, em que todos os dias nos são mostradas in situ as pegadas de uma violência real, nossa próxima porque de feição familiar porque praticada à sombra e na sombra de relações ditas familiares: a chamada violência doméstica, em que “doméstica” perde, enquanto adjectivo, o sentido afável de “familiar” ou “caseira” mas faz ressaltar e enfatiza o de “íntima”, “escondida”, “secreta”, quiçá “sofrida por natureza” e “inconfessável”. São estes últimos atributos que a tornam difícil de detetar, ou mais precisamente de a atender enquanto forma tão atentatória da qualidade do nosso tecido social. Porque qualquer movimento de indagação e socorro vai inevitavelmente esbarrar com o dever de salvaguarda da privacidade devida a cada um. Reconheçamos, no entanto, que essa privacidade, que vem sendo sacralizada nestes últimos tempos, terá no entanto, e precisamente por amor à segurança desse “cada um”, de ser entendida adequadamente, com senso mas também com sentido cívico. Que fazer quando somos atingidos por sinais evidentes da eclosão desses conflitos, quantas vezes nos nossos vizinhos de patamar ou detetados, por exemplo, no comportamento estranho dos nossos alunos cujos pais estão em processo de divórcio? Ouvir a voz do povo que recomenda “Entre marido e mulher não metas a colher”? (também um dito “doméstico” para dar a nota da intimidade inviolável…). Ou agir cívica e civilizadamente, alertando as autoridades competentes? Claro que são mais questões de convívio íntimo (ou sobretudo…) que de convívio social aberto, surgidas de relações dualizadas (sejam elas entre pais e filhos ou entre marido e mulher) que se desenvolvem fora da nossa órbita pessoal de vida. Mas que, quando atingem o ápice da espiral da sua violência interna, ferem todo o tecido social que nos congrega. Quando a faca fere e mata, no local do crime as flores e as velas não passam de atos de fé contrita ou de carinho impotente e tardio. As reportagens, as notícias, as entrevistas que escorrem em repetição doentia de rádios e televisões, não resolvem nada – apenas alimentam curiosidades malsãs, desesperam espíritos lúcidos e, quem sabe?, inspiram loucas vontades intoxicadas pelo ciúme, pelo desejo de vingança ou por um colossal e ilegítimo sentimento de posse ou poder exclusivo.
Os números da APAV (Associação Portuguesa de Apoio à Vítima) relativos a 2018, são apavorantes. Em resumo, dos crimes contra pessoas, 77% são de violência doméstica (total 6.928), dos quais 86% são contra as mulheres, praticados por cônjuges, ex-cônjuges, companheiros ou ex-companheiros. No ano em curso, já vamos em mais de 20 mulheres assassinadas neste cenário. E a pergunta salta: em que país estamos? O que está a acontecer de tão podre e de tão encarniçado a esta geração? – os agressores e vítimas situam-se, na sua maioria, entre os 26 e os 55 anos de idade. Se não todos, quase todos nascidos e todos criados e educados depois do 25 de abril, que permitiu que se abrisse o leque das interrogações e o debate sobre todas as realizações e tendências sexuais. Mas o mais importante, o mais construtivo e o mais re-conciliador é (teria sido) a Educação. Não porque, a partir a daí, nela se esperem “revoluções miraculosas” mas porque nela se podem implantar políticas educativas que dignifiquem e humanizem, que removam os empenos cediços à modernização dos meios e dos materiais, que promovam a convivência inclusiva, no respeito ou assuncão dos costumes ou das suas diferenças quando devidamente enquadradas e esclarecidamente aceites. Vivemos hoje dias em que se vem proclamando, a torto e a direito, a igualdade de géneros, muitas vezes – e permitam-me a franqueza – utilizando uma ginástica quase escabrosa para justificar tudo e mais aquilo que nem mesmo Eros alguma vez terá imaginado… Porque se trata de SEXO, com certeza. Dum assunto fulcral e fundador. Dum assunto em que, atinadamente, devemos pegar com pinças porque, com tantas liberdades cruzadas que por aí grassam, a única coisa que podemos/devemos exigir é que se trate dele com honestidade e respeito. Todo o respeito do mundo porque pisamos terreno sagrado: o chão de todos os sentimentos de doação e fruição de um CORPO que nos foi dado para habitarmos um ONDE em que a Vida, que com ele nos foi entregue, só é sustentável em igualdade, equivalência, com-partilha e inspiração amorosa. Entre todos – Homens e Mulheres, livres nas suas diferenças e fiéis na verdade das suas entregas!
Lisboa, 24 de Setembro de 2019