Eu, que fui um dos que embandeirei em arco desde vinte e oito de março de mil novecentos e setenta e sete, quando ouvi a notícia do pedido de adesão de Portugal

à Europa que, ao que me lembro, foi protagonista o primeiro-ministro Mário Soares, vi sempre a Europa como um continente livre onde apenas os dois países ibéricos eram exceção. Este conceito que se criou em mim deve-se a uns trinta e poucos meses emigrado, onde o franco como moeda e Georges Pompidou eram referências na liberdade e faziam de Paris a varanda da Europa.
Regressei a Portugal para cumprir o mais elevado dever que era incutido aos rapazes. Era, nem mais nem menos, que cumprir o serviço militar e estar pronto para defender o colonialismo português. Eu, por razões que nunca cheguei a saber, nunca fui mobilizado para qualquer das frentes. Todavia, fiquei por cá e estive na parte ativa da revolução de abril de onde vim a colher uns certos ideais políticos que ainda mantenho.
Pelo que deixo escrito fiquei cheio de felicidade em doze de junho de mil novecentos e oitenta e cinco, aquando da assinatura da adesão, também ela conduzida por Mário Soares, e muito mais ainda quando começámos a usufruir o pleno direito a partir de um de janeiro de mil novecentos e oitenta e seis, já com Cavaco Silva nas rédeas do governo.
Ora, acontece que um país de pleno direito Portugal nunca foi, pois fomos levados na conversa do dinheiro que chegava e que se pensava que era para desenvolver o país, mas que nunca chegou a ser assim. Recebemos alguns milhões mas em troca disso fizeram parar todo o nosso tecido económico nas várias áreas da produção. Habituaram o zé-povinho a estar quieto e à meia barriga e ai de quem produza para além das linhas vermelhas como agora se diz, tem de pagar bem caro esse abuso.
Pensando um pouco sobre o que afirmo não vejo qual será o interesse que um país possa vir a ter com a ociosidade paga e o excesso de produção penalizada. Mas o que mais me afronta são as negociações feitas ao longo destes trinta anos, onde Portugal perdeu a sua soberania e passou a ser uma colónia da Europa central onde tem de prestar todas as contas. Para além disso alargam as distâncias entre os seus apaniguados e a restante populaça, que cada vez com menos vai seguindo o caminho que lhe foi indicado por um antigo feitor desta colónia: - “Aguenta, aguenta!”.
Quando o país rola por uma outra bitola que não a que foi indicada, levanta-se o poder económico, como é o mais recente caso do senhor Wolfgang Schäubl com a sua ingerência nas finanças que não são as suas e que até deixa muito mal no retrato aqueles que há tempos atrás por aqui lhe serviram de muletas.
No meu ponto de vista, ingerências deste teor levou os britânicos ao divórcio e, pelo que vejo, a Itália está a dar os mesmos passos. Ora, o que vai acontecer é que a União Europeia acaba por se desmoronar varrida pelos ventos que são conhecidos por nacionalismos exacerbados.
Os filhos e os afilhados debaixo do mesmo teto sempre foram motivo para discórdia e tal como na Europa, enquanto o suor alheio valer menos que o próprio, o prejudicado refila sempre e com toda a doutrina democrática a dar-lhe a razão. Estou convencido de que não se poderá chegar muito longe, pois pelo que vejo ninguém melhor do que nós poderá zelar pelos nossos interesses.
Temos pouca terra, mas temos muito mar onde podemos ir buscar muito daquilo que agora damos para depois comprar. Aliás os portugueses não gostam do jugo, por sua conta sempre foram aventureiros.
Perdoem-me esta confissão de quem pomposamente defendia a Europa e agora a vê doente. Estou como dizia o meu avô, o que está à vista escusa candeia.