Aquando da Conferência de Munique, em Fevereiro de 2019, o Vice-Presidente americano, Mike Pence,

deixava os europeus aterrados ao incitá-los a retirarem-se do acordo nuclear do Irão. Porém, Joe Biden, tentou, nessa altura, colocar água na fervura, ao subir à tribuna, afirmando, num tom visionário e profético: quando formos poder, isto mudará.Os europeus, habituados às manobras de Donald Trump, não lhe prestaram ouvidos, pois já se tinham conformado à nova realidade que pairava nos arcanos da Casa Branca: a América tinha-se desligado da Europa e interessava-se apenas pelos governos com ambições populistas.Esperemos que a então promessa de Joe Biden se realize quando tomar posse, a partir do dia 20 de Janeiro. E tudo leva a crer que a preocupação da Europa está na sua mente, ao escolher Tony Blinken para coordenar a diplomacia americana, pois este dirigente conhece bem a Europa, por ter vivido grande parte da sua vida em Paris. O resto da equipa apresenta-se conotada com o centro, com capacidade de diálogo, bem longe da imprevisibilidade de Trump e da sua equipa.O Zoom tem funcionado nestes últimos tempos entre os peritos americanos e europeus e revela que o futuro entre as duas entidades será diferente, certamente, mais construtivo. É certo que também o mundo mudou nestes quatro anos: acentuou-se a contramundialização, a China afirmou-se ao nível mundial, as novas tecnologias tornaram-se imprescindíveis, banalizou-se o autoritarismo e as recentes consequências, a todos os níveis, da pandemia da Covid-19 são incontroláveis.Para a nova administração americana as prioridades absolutas irão no sentido de controlar a epidemia e relançar a economia. A profunda divisão em que se encontra a sociedade americana não vai facilitar a tarefa de Joe Biden, assim como a degradação da imagem da democracia, bem como o sentimento de fragilidade em que se aparenta a maior potência mundial.Alguns peritos já apontaram o programa: Joe Biden deverá relançar o poder de compra da classe média e a grande energia governamental deverá orientar-se para o interior dos Estados Unidos. As relações exteriores virão para segundo plano. Evidentemente que a China fará objecto de atenções especiais. Face aos europeus o novo Presidente utilizará uma linguagem diferente, a fim de colocar Washington no caminho do multilaterismo, o que já é muito importante.  Solicitará a solidariedade dos países europeus para ressuscitar o acordo nuclear iraniano.Esta será uma oportunidade para a Europa cujo desejo de autonomia vai ao encontro da estratégia da nova administração americana, que sem energia nem meios, não tem pretensões de se ocupar dos problemas que se apresentam às portas da Europa, no próximo oriente, no Cáucaso, no espaço pós-soviético... Espera-se que Paris e Berlim irão aproveitar este novo tempo da administração americana para implantar maior autonomia, maior soberania para a Europa que deve ser uma entidade mais independente e mais orgulhosa da sua vontade de se afirmar entre os países que a compõem e perante o resto do mundo. A Europa deve também formular as suas próprias proposições e ultrapassar as suas próprias divisões. O objectivo é comum para a Europa e para os Estados Unidos: é necessário reinventar as relações mútuas face a um mundo que evoluiu e que é diferente.