A desconexão territorial e a anestesia total

Recentemente, uma decisão polémica gerou uma onda de contestação que se virou contra a gestão da TAP e o seu plano de voos para junho e julho e que foi liderada por autarcas de Norte, uma das regiões mais prejudicadas pelas intenções da companhia aérea. Tudo isso levou a que o conselho de administração da transportadora viesse dizer que iria haver um novo plano. Houve uma espécie de todos contra a TAP, que obrigou a companhia a repensar a estratégia.Tratava-se de uma decisão de uma companhia de maioria de capital privado onde o Estado também tem uma quota parte.Ainda a referida polémica está fresca e eis que a CP, de capitais exclusivamente públicos, vem anunciar a supressão de ligações do comboio intercidades na Linha da Beira Alta, duas no sentido Lisboa-Guarda e uma no sentido Guarda-Lisboa, uma decisão tomada sem qualquer consulta prévia, ou sem ter sido dado conhecimento, às entidades locais e regionais.Perante um atropelo destes, nem uma palavra de contestação se ouviu dos autarcas eleitos dos concelhos do interior afetados por tal medida que, proporcionalmente, talvez seja mais gravosa do que a do plano de voos da TAP.Não há ninguém que defenda as populações afetadas por uma consequência dos vírus centralistas da capital e do litoral?Pelos vistos, não. Por aqui parece que basta que aja umas festas que nada mais importa. Neste caso não houve todos contra a CP.Já não bastam as limitações impostas à região pelas malfadadas portagens para agora nos quererem confinar com a supressão do serviço público de transportes, sem qualquer justificação?Imaginem a incongruência que quando nos anunciam a requalificação de troços de linha férrea, simultaneamente nos tiram os respetivos comboios. Perante uma decisão desta, a pergunta que se impõe fazer é para que serve a linha férrea sem material a circular nela?Tão ou mais grave como a decisão é o silêncio de quem tem o dever de representar e defender o interesse das populações. Há uma espécie de anestesia total ou então são as vozes do Interior que já não se conseguem fazer ouvir em Lisboa. Mas por aqui também nada dizem. O interior já está afónico.Esta decisão é, lamentavelmente, mais uma das muitas que discriminam negativamente um dos distritos mais interiores do Interior e da região Centro – Guarda – e num momento dos mais difíceis dos últimos anos, em que o país precisa de políticas ativas de discriminação positiva em reforço da coesão territorial e não de políticas que cavem ainda mais o fosso entre Litoral e Interior.Esta medida é mais um exemplo da distância que afasta o discurso e a realidade, em que o primeiro supostamente valoriza o Interior e a coesão territorial– até com a criação de um ministério –, a aposta na Ferrovia e o combate às alterações climáticas, através da promoção de alternativas ao transporte automóvel, e a segunda vai totalmente ao arrepio desse discurso.Os tempos são de desconexão territorial com anestesia total.