No dia em que escrevo este texto, era costume passear na minha terra de cravo vermelho ao peito,

já que mais não fosse para dar corpo a uma canção que surgiu no ano de 1975, em que se cantarolava: - Cravo vermelho ao peito/ A todos fica bem/ E sobretudo dá jeito/ A certos filhos da mãe.Estou a falar do 25 de abril de 1974 e irei dizer algo das cerimónias que se lhe seguiram até ao dia de hoje em que somamos 46 anos de Democracia.Ao tempo, eu cumpria o Serviço Militar Obrigatório na minha cidade, que é a mais alta no então Regimento de Infantaria nº 12. Fui dos primeiros a saber do Movimento das Forças Armadas e no seu seguimento em várias ações participei.Mas não é esse 25 de abril que eu aqui trago, mas sim as comemorações que se lhe seguiram. Nos primeiros anos, era tudo à grande e à francesa, como diz o no Povo. Havia desfiles com todos Corpos das Forças Armadas e Militarizadas. Em cheguei a participar nalguns embora já com outro uniforme, dado que o Exército já me tinha oferecido a tão desejada peluda. Aqui peluda entende como vida de paisano, pois na tropa era obrigatório fazer a barba diariamente e cortar o cabelo com assiduidade. A vida civil não nos obrigava a tanto, logo se podiam deixar os pelos da barba crescer mediante a nossa vontade, daí se militarizou o termo como peluda em sinónimo da passagem à disponibilidade, designação que era usada no tempo.Com o andar dos anos o poder militar foi decaindo e em contrapartida o poder político começou a organizar-se, foi-se partidarizando e a reclamarem eleições para medirem forças com eleitorado que iam conquistando nas campanhas eleitorais As primeiras eleições livres aconteceram um ano depois da revolução, no mesmo dia. O objetivo das mesmas era formar-se a assembleia constituinte para dentro de um ano elaborar a Constituição da Republica Portuguesa. Foi o Partido Socialista que conseguiu o maior número de votos e Henrique de Barros foi o primeiro eleito a ocupar a cadeira-maior da casa-mãe da Democracia Portuguesa.Curiosamente dois anos depois, em 1976, houve as primeiras eleições legislativas, também no dia 25 de abril. Por aqui se pode avaliar a importância a nível, mesmo político que se dava ao 25 de abril.Foi-se perdendo a noção do valor do 25 de abril e da democracia, que agora nos últimos anos, apenas se comemoravam a nível oficial em sessão solene na Assembleia da República e no exterior, a cargo das centrais sindicais, onde se aproveitava o dia para fazer umas quantas reivindicações.Era também habitual, embora de pequena monta, alguns municípios fazerem exposições fotográficas onde sobressaía o herói do dia, o falecido capitão Salgueiro Maia, o braço armado da revolução. Chegados aqui e como diz o poeta de Águeda vamos debruçar-nos sobre o vento que passa. A situação atual e aquela força invisual que faz cair a economia e perder força à democracia. Estou a falar da pandemia que nos impede de festejar seja o que for durante um percurso de que não temos a noção de quando terminará nem de quando se irá virar o cabo das Tormentas.Temos a esperança de que os confinamentos não estejam muito distantes, todavia mesmo com essa confiança, já há quem nos aponte uma segunda vaga, que normalmente encontram o caminho mais aberto. Também não deixa de ser verdade que os primeiros a seguirem são os que tem mais fragilidades na saúde, mas o que é certo, é que indo uns ficam outros a seguir, há sempre pessoal para embarque. Diz o nosso povo e com toda a sua filosofia, que não há mal que sempre dure nem bem que sempre ature, mas o que não é menos verdade é que o período das vacas magras é muito mais violento a passar.É precisamente isso que me leva a afirmar vemos a Democracia em Continência, pois tem de haver privação em todos os atos que se levam a efeito e que sejam de natureza secundária.