É sempre mais fácil falar dos outros do que de nós próprios e, neste caso, daquilo que acontece ao meio da nossa existência.

Quero referir-me à chamada crise dos 50 anos. O psicanalista Carl Gustav Jung descreveu o processo psíquico de transição do meio da nossa vida que, normalmente, ocorre entre os 40 e 55 anos. Afirma que se trata de uma passagem obrigatória, tal como a da adolescência, a qual permite a passagem do estado de adolescente para a de adulto. A transição do meio da vida é um tempo necessário e natural, mas um pouco mal conhecido. Bem gerido, permite abordar esta situação de uma forma lúcida, embora não seja fácil de viver. Mas aqueles que lá chegam passam necessariamente por lá. Um adolescente não escolhe tornar-se adolescente. É uma fase natural. A transição do meio de vida é também um processo obrigatório. A única maneira de o passar com harmonia é encará-lo como uma passagem de crescimento, de equilíbrio e de autenticidade. Esta passagem provoca uma certa vulnerabilidade. Quando um caranguejo muda a carapaça, torna-se vulnerável e protege-se, escondendo-se debaixo das rochas, à espera que se solidifique. Também nós, quando atravessamos esta transição do meio da nossa vida, temos de pôr de lado as coisas que nos colocam numa posição de fragilidade. Algumas coisas que pensávamos adquiridas, vamos colocá-las em questão. As certezas caem por terra, as prioridades podem mudar. Se, por exemplo, ao princípio da nossa vida profissional estávamos concentrados em fazer uma brilhante carreira, por volta dos cinquenta anos podemos interrogar-nos se não haverá outra maneira de viver a nossa existência, com um maior equilíbrio entre a vida profissional e familiar, dando mais importância à qualidade de vida. Nesta fase o corpo muda no homem e na mulher, e é necessário fazer o ajustamento a esta nova situação. É necessário acolher a nova realidade e não opor-se a ela. Também no casal há mudanças. Os filhos atingiram a maioridade, partiram do lar e o casal, que estava centrado na parentalidade, tem agora de se orientar para a conjugalidade. O homem e a mulher sentem-se sozinhos. Têm de saber que no casal existem virtudes fecundas. Vai ser necessário tomar novo rumo e são necessárias novas energias. Têm de olhar um para outro, construir uma nova dinâmica, têm de se sentar e falar para não ter a tentação da fuga e encarar a mudança como uma prova de crescimento, porque o risco pode ser a debandada. Nos campos de concentração não foram aqueles que eram mais robustos que resistiram, mas os que praticavam uma vida interior, uma vida espiritual que pressupõe uma interrogação sobre o sentido da vida a qual, inevitavelmente, nos orienta para uma abertura de portas novas. Temos de aprender a amar, a dar mais do que possamos receber, a viver o instante presente, a elaborar novos projectos. Julgamos que a juventude é sinónimo de liberdade, mas damo-nos conta que aos cinquenta anos tem-se mais liberdade para realizar as ideias que não conseguimos concretizar antes.