Com certa saudade, hoje, venho aqui focar um pouco da filosofia de vida do meu pai, que já apanhou o comboio da eternidade, nos últimos dias do ano de dois mil e dezoito.


Como analfabeto que era, as corruptelas no seu vocabulário eram frequentes, mas entendia-se bem pois usava a mesma linguagem que os demais do seu tempo.
Afirmava ele com certa frequência, que as “augas” era o melhor que o Céu nos dava e muito melhor eram quando fossem novas. Referia-se assim às águas das chuvas, chamando novas às que chegassem depois das colheitas.
Isto que ele dizia, muitas das vezes era contestado por quem tinha outros conhecimentos. Apontavam o Sol como o principal valor da Humanidade. Se bem que isto seja verdade, sem Sol não há chuva, também podemos dizer que sem água não há vida. Aliás alguns planetas iluminados pelo Sol, não têm vida por não ter água. Havendo água já é possível haver vida.
Esse bem abençoado que é a chuva, é bastante incómodo, mas o bem que provoca no nosso meio ambiente é bastante superior. É certo que torna os dias tristes, mas faz falta, como diz o nosso povo. Outrora apenas se ressentia no mundo agrícola, enquanto que agora se faz notar nos espaços urbanos, pelas carências da vida doméstica.
Nesta minha idade e o modo de vida que tenho, vejo a chuva talqualmente ela é, preciosa para tudo o que é vida, mas como se diz por aqui, eu não tenho uma horta nas costas evito que ela me caia em cima.
Como tenho bastante tempo disponível, gosto muito de a ouvir cair quando estou na cama e em plena escuridão, pois o ritmo com que a sinto, dá-me bem a perceber a pluviosidade no exterior. Quando esse ritmo acabar, levanto-me vou à janela e vejo se ficamos por aqui, ou se já vem outra chuvada a caminho o que faz com que permaneça mais uns tempos em vale de lençóis.
Sei que o meu gosto se assemelha ao de muita gente, só que por compromissos de vária ordem têm que dar o corpo às pingas. Mesmo a mim me acontece, em certas ocasiões não estou prevenido e também passo por baixo de alguma, pois não tenho o dom de estar sempre perto da cama quando a chuva cai. Estou aqui a fantasiar um pouco, mas é dar enfâse a um certo prazer que a natureza de tempos a tempos gratuitamente me oferece.
Falei até aqui de um dos vários prazeres que a cama nos proporciona, desde o merecido descanso, passando pelo mais encantador sonho, à mais terna das volúpias. Tudo ali acontece respeitando as leis naturais a que o ser humano fica sujeito. Quando estes preceitos não são tidos em conta violam-se os bons costumes e os afetos originando por vezes tragédias, que algumas delas, nunca ficamos a saber o ponto de partida.
Mas deixem recuar à música que a chuva me dá. No princípio desta época de chuvas, conversava eu este tema com o amigo radicado há mais de cinquenta anos no Brasil, de onde vem de vez em quando. É uma pessoa bem-disposta alegre e chama a sí o seu epíteto de gozador.
Inconformado com a chuva, este meu amigo “paulista” deu motivo a que a conversa se abrisse do modo como descrevi no corpo de texto. Quis fazer-lhe ver que para quem não tinha o tempo ocupado era interessante ouvir aquela sinfonia, de que não conheço maestro que faça bater o ritmo mais certo e além do mais a música através dos nossos ouvidos torna-se relaxante.
Foi aí que o “paulistas gozador” se saiu com uma das dele:
- Você sabe qual é a coisa que há mais parecida com a chuva?
Depois da minha resposta negativa, de imediato me deu a resposta:
- É a amante! Pode ter grande prazer com ambas na cama mas sair à rua acompanhado com qualquer delas é muito complicado.
Aceitei! E disse-lhe utilizando o sotaque dele “é mêmo certo!”.
Por aqui fico à espera de dezembro.