DOIS DEDOS DE HISTÓRIA


Desde a fundação do Reino de Portugal que a altanaria é praticada, designando não só o género de caça em que eram usadas aves de rapina, mas também a arte de adestrar essas aves.
Basicamente, as aves utilizadas neste tipo de caça eram divididas em duas categorias: aquelas que se elevavam no ar e, pairando ou sobrevoando em círculos, esperavam que o animal que iam caçar se levantasse, e as que partiam do punho do caçador no momento em que a presa se levantava para as perseguir e caçar num voo direto. As aves do primeiro género eram, de modo especial, empregadas na caça de aves que utilizavam a água como poiso. Eram soltas pelo caçador após os batedores que o acompanhavam fazerem rufar os tambores para que as presas levantassem.
Esta arte de caça tinha as suas regras e costumes. Por exemplo, algumas espécies de aves ribeirinhas eram reservadas à caça em que os reis participassem, bem como certas espécies de falcões. É por este motivo que, ainda hoje, algumas aves mantêm denominações como o pato real, a graça real ou o maçarico real. Mas outras aves mantêm os qualificativos que nos lembram estes privilégios.
Nas antigas cortes os homens que sabiam adestrar as aves de caça eram muito estimados e obtinham uma grande consideração por parte do povo, mas também da nobreza e dos reis. Por exemplo, o falcoeiro-mor era o caçador de confiança do rei, dele dependendo diretamente, sendo-lhe concedida a mercê de terras, casas e herdades. Não é, assim, de estranhar que alguns autores tenham deixado documentada a sua perícia e arte em obras que hoje são raras e muito apreciadas.
A grande dificuldade desta arte consistia essencialmente em se conseguir a obediência das aves de caça, sendo necessário amestrá-las para voltarem ao punho do caçador de livre vontade, ou quando fossem chamadas pela negaça ou chama. Estes termos designam a utilização de um arremedo da ave preso duma correia vermelha e flexível que o falcoeiro agitava no ar quando queria que o falcão voltasse para o seu punho. Enquanto durava o adestramento, a negaça estava preparada com pedaços de carne para o falcão comer quando, de livre vontade, correspondia ao chamamento do falcoeiro. Deste modo, se habituava e obedecia ao sinal.
A caça de altanaria era feita a cavalo para os caçadores poderem seguir o voo dos falcões pois estes, numa grande parte das ocasiões, apenas conseguiam abater a presa a grande distância do ponto inicial da caça.
O trabalho de açores, falcões e gaviões era, muitas vezes, complementado com a ajuda de cães, normalmente, podengos e galgos, que buscavam e apanhavam os animais, ajudando as aves de presa e entregando-os aos seus donos.
Em vez dos cães, também podiam ser usados furões na caça de coelhos e lebres ao espantá-los das suas tocas, expondo-os ao alcance das aves de rapina.
Diogo Fernandes Ferreira, um autor português do século XVII, publicou um livro no ano de 1616 intitulado Arte da Caça da Altanaria*. Este entusiasta caçador faz nele um elogia da caça:
“Faz a caça os homens ágeis, fortes e robustos, desprezadores de delícias. É conservadora da castidade. Muitos autores escrevem que Diana para guardar sua pureza e castidade fugiu à conversação dos homens e se fez caçadora, pela qual razão as gentilidades a tiveram por deusa da caça. Esta se reparte em duas caças bem diferentes, uma das feras escondidas nos bosques, outra das aves celestes de rapina. Estas duas caças são diferentes no modo de caçar. As feras se caçam e perseguem com cães, e se matam a ferro e a fogo, incitando à fereza e crueldade. A nossa das aves é de príncipes, e se faz, muito pelo contrário, com amor, com engenho, prudência e sofrimento. Com engenho tomando os falcões, açores, gaviões e esmerilhões bravos, e fazê-los com amor e prudência mansos e amigos, que eles postos em sua liberdade desçam das nuvens aos acenos dos senhores, com mostras de amizade, significando que tem saudades de seus amigos e afagos.”
Consultando outras fontes é possível apurar que a paixão que os nobres dedicavam a este tipo de caça era motivada pelo facto de este exercício os preparar para as artes da guerra.
Atualmente a arte da altanaria conserva muitos adeptos em todo o mundo e ainda se pratica a caça com aves de rapina, em particular na Escócia.

*A Arte da Caça de Altanaria é um tratado de falcoaria de origem portuguesa do século XVII, escrito por Diogo Fernandes Ferreira e por ele dirigido a D. Francisco de Mello, Marquês de Ferreira, Conde de Tentúgal, etc. O autor era caçador e moço da Câmara do rei de D. Filipe II (1598-1621). Foi redigido em 1616.
O livro pretendia ter uma função didática, pois destinava-se a proporcionar à geração presente e às gerações futuras a formação e educação caçadores e falcoeiros na domesticação, no treino, na alimentação, no tratamento e no cuidado das diversas aves de cetraria, ou falcoaria, e dos seus habitats, fossem elas originárias de Portugal ou oriundas de fora do reino.