A detenção de José Sócrates arrastou um arraial de opiniões e deu visibilidade a muitas contradições. Houve de tudo um pouco; em público houve quem criticasse, e em particular, certamente, houve quem aplaudisse e pensasse: até que enfim!...


Na verdade, muitos que vi e ouvi, na televisão, a criticar por terem detido, à saída do avião, o ex primeiro ministro, eram aqueles que, de uma forma genérica diziam que a corrupção grassava na sociedade portuguesa, mas a justiça era só para “a arraia miúda”, porque aos senhores de “colarinho branco” nada acontecia. Simplesmente, quando o genérico ganhou um nome específico, apareceram logo falsos progressistas a dizerem que foi injusto deterem o ex primeiro ministro, mas quando lhes convém proclamam, alto e bom som, que todos os cidadãos são iguais perante a lei. A justiça deve ser cega, mas ela ia espreitando por debaixo da venda, e por isso é que o ex bastonário da Ordem dos Advogados, Marinho Pinto, dizia que havia uma justiça para os ricos e outra para os pobres.
Seria bom que estes acontecimentos recentes “os vistos gold”, a “detenção de José Sócrates”, e “a condenação de Duarte Lima” mudasse os hábitos alimentares de muitos e abandonem a sua preferência pelo “polvo da corrupção”.
No meio de tantas afirmações houve umas que prenderam mais a minha atenção, talvez por serem mais estapafúrdias, e estas terem como autor Mário Soares, quando disse que isto era uma bandalheira. Esta palavra despertou em mim dois sentimentos opostos: um lembrou-me o diálogo que ele teve, na televisão, com Álvaro Cunhal e este lhe repetiu várias vezes, “olhe que não, olhe que não”; depois veio-me à ideia concordar com ele e reforçar a ideia de bandalheira, quando ele perdeu a noção do ridículo e disse que José Sócrates tinha sido um primeiro ministro exemplar. Então os seus princípios republicanos proclamam que todos os cidadãos são iguais perante a lei, mas pelos vistos isso é só para os outros, porque ele foi visitar o seu amigo José Sócrates, à prisão de Évora, num dia que não estava destinado a visitas e num carro oficial com o condutor pago pelos contribuintes.
Será que quando foi à Tunísia visitar o seu amigo Bettino Craxi, igualmente ex primeiro ministro de Itália, mas que teve de fugir para não ser preso por corrupção, também usou a palavra “bandalheira”? Só é “bandalheira” em relação a José Sócrates, mas para o seu motorista e para o seu amigo de infância apenas foi feita justiça?...
Depois de ver e ouvir o programa televisivo “6ª Feira às nove”, do dia 28-11-2014, fiquei com a certeza de ser impossível que tudo aquilo, ali afirmado, seja mentira.
Pode não se gostar, mas Passos Coelho tem razão quando diz que nem todos os políticos são iguais, pois basta comparar o comportamento dos três ex Presidentes da República, para saltar à vista a diferença. Já agora, Mário Soares e outros socialistas expliquem à opinião pública porque é que José Sócrates, estando preso, mandou três comunicados para três órgãos de comunicação social deferentes; ai essa apregoada igualdade!...
Já que “anda meio mundo” a levar-lhe livros, seria interessante levarem-lhe a revista “Lux”, de 1 de Dezembro, para ele ler a entrevista de Manuela Moura Gudes e talvez depois melhore o seu sentimento de liberdade e de justiça.