Face a notícias que têm vindo a público quanto a feriados civis e religiosos e a sua reposição no calendário, no meu modesto entender apenas há um modo de os revitalizar.

Ora, se um só ato legislativo os retirou, e para não melindrar esta ou aquela crença, nada mais correto seria do que os colocar a todos de uma assentada e medir tudo pela mesma rasoira. Evitavam-se polémicas e debates infrutíferos.
Este meu pequeno prólogo serve para dizer o que sinto por terem silenciado o 5 de Outubro. À semelhança de mim e de tantos da minha geração, Portugal não foi registado no dia em que nasceu, fomos tempos mais tarde, e a data de nascimento que começou a contar foi a do registo, sendo essa que regula toda a nossa vida, o aniversário, a maioridade, a aposentação, e tudo o resto que mexe com documentação pessoal. Hoje já não é assim, pois as maternidades, além da data, registam a hora e o minuto em que o parto ocorreu.
Com base nos dados históricos a que eu tenho acesso, Portugal nasceu em vinte e seis de junho de mil e cento e trinta e nove, com a aclamação de D. Afonso Henriques como rei. Todavia esse feito apenas teve o seu registo, mais de quatro anos depois na Conferência de Zamora, com a delegação Papal chefiada pelo Cardeal Guido de Vico, precisamente em cinco de outubro de mil e cento e quarenta e três. É esta a data que constará em qualquer documento que identifique Portugal como nação, donde saiu um reino que teve a duração de setecentos e sessenta e sete anos precisos, pois a monarquia morreu no dia do seu aniversário do ano de mil e novecentos e dez para dar lugar ao regime republicano em que vivemos desde então, muito embora com algumas sombras no seu trajeto.
Não sei qual o motivo por que os monárquicos ignoram esta data, penso que o facto apenas reside em quererem ser diferentes dos republicanos, que nesse dia fazem subir a bandeira nacional. Por seu lado escolhem o dia um de dezembro, que apenas é alusivo à restauração, que nos libertou do jugo filipino. No entanto, e no meu ponto de vista, este dia já não tem a simbologia de outros tempos, devido aos novos tratados e espaços em que transitamos. Também é bom de referir que esta corrente política também nunca cumpriu na perfeição as delimitações resultantes das partilhas de Alcanizes, garantidas pelo nosso rei “Lavrador” em doze de setembro do já distante ano de mil e duzentos e noventa e sete, perante as coroas dos outros reinos confinantes.
O cinco de outubro merece, no meu entender, ser considerado como um dia de festa nacional e, acima de tudo, de unidade, porque dentro dele há, com certeza, um pouco de todos nós. Mesmo aqueles que não veem com bons olhos as cerimónias da Câmara Municipal de Lisboa, podem recuar na história e ir até Zamora, pois segundo a minha análise, foi mais importante o que aí aconteceu, do que a mudança de regime do século passado.
Não é minha intenção apontar o dedo a qualquer ideologia, estou mesmo crente que o cinco de outubro de Zamora não conste no conhecimento de muitos, mas uma vez aqui chegados, por que não tocar a reunir, como no meu tempo se dizia na tropa, e mostrar ao mundo a nossa história, a nossa identidade, a nossa soberania e, o mais importante, a cidadania de um povo.
Convém que quem me lê recorde que os portugueses antes irem além da Taprobana, onde tiveram a maior conquista, foi em Zamora.