Histórias que a Vida Conta

À força de ser repetida, esta frase parece vir perdendo o vigor e, quando a ouço, dá-me a sensação de algo longínquo e cediço. É a força do tempo que passou desde esse louvado dia de 1974 e é também reflexo das mudanças que todo esse tempo provocou na sociedade e na condução da sua vida política. Nada que se estranhe, aliás – é assim que a vida corre, é assim que a vida marca. Mas, quando há que falar desse dia, sempre que ele é rememorado em situação solene e oficial, muito em especial numa casa e para uma audiência renascidas do ímpeto e da inspiração desse dia fundador, creio que se torna cada vez mais difícil evitar cair em lugares comuns nos encómios, nos propósitos e nos anseios que estas circunstâncias sempre convocam. Ser-se original e mobilizador sobre o tema sem se cair na verborreia, na vacuidade ou no discurso politicamente oportunista tornou-se uma quase raridade.Mas este ano – Deo gratias! – Marcelo Rebelo de Sousa conseguiu-o. Tivemos, na manhã deste 25 de Abril, o ressurgimento do que é uma peça de oratória verdadeiramente exemplar. Porque com objetividade, coragem e sinceridade, usou um caminho e uma linguagem que procurou tocar a todos e uma perspetiva temática que a todos impressiona: a da história dos movimentos e dos factos políticos do antes e do depois do 25 de Abril, como se este tivesse sido o exato ponto de viragem duma esquina para uma rua que, não se sabendo bem aonde iria dar, era contudo um imperativo da movimentação das gentes, da nossa gente, do Portugal “amordaçado”, como já foi dito. Pressentia-se nas suas palavras o jeito do Professor, mas também a vontade de, por uma vez, se encarar a Revolução naquilo que ela realmente foi, como naquilo que de bom ou de mau ou de apenas hipotético e não realizado, dela resultou. Convocou o juízo das diversas gerações situadas em função do 25 de Abril: as que viveram antes e o “sofreram”, as que viveram depois e o “alimentaram” e aquelas que só dele sabem o que ouviram dizer e o “imaginam”. E disse: ”Para todos eles, e muitos mais, o juízo é tão complexo como complexa foi a mudança histórica que neste dia evocamos, na sua abertura para a Descolonização, para o Desenvolvimento, para a Liberdade, para a Democracia. Desenvolvimento, Liberdade e Democracia, sabemo-lo todos, sempre foram imperfeitos e por isso não plenos, porque nunca tendo resolvido uma pobreza estrutural de dois milhões de portugueses, desigualdades pessoais e territoriais e desinstitucionalizações – que aqui referi em 2016 e 2018 – e que a pandemia veio revelar e acentuar”. E, mais adiante, imperativo: ”É prioritário estudar o passado e nele dissecar tudo: o que houve de bom e o que houve de mau. É prioritário assumir tudo, todo esse passado, sem autojustificações ou autocontemplações globais indevidas nem autoflagelações globais excessivas.” Aqui, sublinho eu, com sentida ênfase, o que se segue: ”E no caso do passado mais recente, assumir a justiça largamente por fazer ao mais de um milhão de portugueses que serviram pelas armas o que entendiam, ou lhe faziam entender, constituir o interesse nacional. Aos outros milhões que cá ou lá viveram a mesma odisseia. Aos milhões que lá e cá a viveram do outro lado da história, combatendo o Império colonial português, batendo-se pelas suas causas nacionais, ou a viveram do mesmo lado, mas ficaram esquecidos, abandonados por quem regressou e condenados por quem nunca lhes perdoou o terem alinhado com o oponente”.  Noutro passo não menos empolgante, insiste: “Até por respeito por todos esses e essas, que se faça história e história da História, que se retirem lições de uma e de outra, sem temores nem complexos, com natural diversidade de juízos, própria da democracia. Mas que se não transforme o que liberta – e toda a revisitação o mais serena possível, liberta ou deve libertar – em mera prisão de sentimentos, úteis para campanhas de certos instantes, mas não úteis para compreensão do passado a pensar no presente e no futuro”.Confesso que não deixou de me emocionar aquela espécie de carinho, orgulho e fé exemplar com que nos chamou à sua história pessoal, muito provavelmente no legítimo interesse de se irmanar com aqueles portugueses a quem a vaga da libertação apanhou ao vivo e os fez atores de um destino revivificado. Oiçamo-lo: ”Quem vos apela a isso mesmo é o filho de um governante na Ditadura e no Império, que viveu na que apelida de sua segunda pátria o ocaso tardio e inexorável desse Império, e viveu, depois, como constituinte, o arranque do novo tempo democrático – charneira como milhões de portugueses, entre duas histórias da mesma História e que nem por exercer a função que exerce, olvida ou apaga a história que testemunhou. Como nem por ter testemunhado essa história, deixou de ser eleito e reeleito pelos portugueses em democracia. Democracia que ajudou a consagrar na Constituição que há 45 anos nos rege”.Não descurou, porém, Marcelo, a sua postura institucional, reconhecendo e agradecendo o empenhamento das Forças Armadas, e, numa visão global, em jeito de recensão, levantando o bom e o mau, acautelando os senões, e agendando os imperativos, para concluir, num perfeito arroubo retórico mas lusitanamente sentido: “Não há, nunca houve um Portugal perfeito. Como não há, nunca houve um Portugal condenado. Houve e haverá sempre um só Portugal. Um Portugal que amamos e de que nos orgulhamos para além dos seus claros e escuros, porque é nosso, porque nós somos esse Portugal!”.Senhor Presidente: ouvimos com gosto as suas palavras. E cremos tê-las entendido no que disseram e no que sugeriram. Porque, ao recomendar a reposição da verdade histórica, deixa entender, nas suas entrelinhas, que tal se faça com radical honestidade, porque pode acontecer que, como sugere António Barreto1, “O uso e o abuso da história, a condenação do passado e o aviltamento da história de Portugal com preconceitos e intuitos políticos [são temas difíceis que] sugerem quase sempre, quando não abordados com seriedade, a demagogia barata”. Porque há uma diferença abissal entre os “fazedores” da História – aqueles que a constroem e a cimentam – e os “feitores” da História – aqueles que a transmitem, manipulando-a e desfigurando-a ao sabor das suas conveniências. Próximo ou longínquo, o teatro da História, focado ou fixado seja de que ponto for, requer, na sua abordagem, um cuidado extremo, uma argúcia, “um paciente e incansável esforço” de busca e estudo das fontes, uma imparcialidade radical e convicta, um amor à Verdade que nos transporte ao Passado com a mesma clarividência com que vivemos o Presente. Com todas as armas e as bagagens necessárias para daí podermos partir para um Futuro coerente e promissor. (Footnotes)1 No seu artigo “História e Política” , in PÚBLICO, 1.05.2021, pág.3, que vale a pena ler.