Histórias que a Vida Conta

Apesar de não ser sócio do Clube, sou, desde que me conheço, um indefetível adepto do Sporting Clube de Portugal (SCP).Quando, há já muitos anos, fui aluno da Escola Primária do Asilo e do Liceu da Guarda, penso não errar se disser que, naquele tempo, ou seja, entre os fins da década de quarenta e meados da década de cinquenta, o clube mais popular entre a rapaziada era o SCP. O que não é de admirar se pensarmos que se estava ainda no período dos “cinco violinos”, a célebre linha avançada constituída por Jesus Correia, Vasques, Peyroteo, Travaços e Albano. Viviam-se tempos em que o futebol era um jogo muito menos tático, mais virado para o ataque, sem as preocupações defensivas que os treinadores viriam a adotar. Jogava-se em WM, com dois extremos, dois atacantes interiores e, ao meio, um avançado centro. A estratégia do jogo era oposta àquela que, anos depois, haveria de fazer livre curso, com preocupações ultra-defensivas.Quando, aos 13-14 anos, vim viver para Lisboa, dos “violinos” originários já só jogavam Manuel Vasques, conhecido pelo “Malhoa”, em face dos seus dotes de artista da bola, e José Travaços, o “Zé da Europa”, o primeiro jogador português cuja fama ultrapassou as fronteiras do país. Ainda me lembro de os ver jogar – e que bem jugavam! - no velho Estádio de Alvalade, integrando a equipa constituída por Carlos Gomes, um guarda-redes que tinha tanto de talentoso como de excêntrico, Caldeira e Pacheco, Julius, Galaz e Osvaldinho, Hugo, Vasques, Vadinho, Travaços e Martins. Ainda pude ver in loco alguns jogos dessa equipa e da que se lhe seguiu, com alguns sul-americanos de boa qualidade e bastante arreganho – casos de Faustino, Fernando, Geo, brasileiros, Diego, argentino e outros cujos nomes agora não recordo.Começavam a dissipar-se os ecos da áurea dos “cinco violinos”; aproximavam-se os anos de glória do Benfica, de Eusébio e dos seus companheiros, que deram ao Benfica, durante muitos anos, a primazia indiscutível do futebol português e o levaram, com o treinador húngaro Béla Guttman, a vencer os seus dois títulos europeus. A década de sessenta do século passado foi o período mais glorioso do Benfica. Mesmo assim, nesse ciclo, o SCP ganhou os campeonatos de 1962 e de 1966 e, na época de 1963/64, registou a sua vitória na Taça dos Clubes Vencedores de Taças, com o triunfo de 1-0 sobre os húngaros do MTK, com o histórico “cantinho de Morais”.Recordo o excelente centrocampista que foi Fernando Peres e, com particular saudade, a notável tripla atacante constituída por António Oliveira, Manuel Fernandes e Rui Jordão. E lembro, com especial nostalgia, o fantástico goleador argentino Hector Yazalde (o malogrado Chirola) que foi um símbolo do Sporting com os seus 45 golos na temporada de 1973/1974, marca que não foi ainda alcançada por qualquer outro goleador no nosso campeonato. O grande Eusébio atingiu os 42 golos em 1967/1968 e Mário Jardel alcançou a mesma marca em 2001-2002, no ano da penúltima conquista do Campeonato pelo SCP.A partir do começo da década de oitenta surgiu, com mais qualidade técnica e superior capacidade competitiva, o F.C. do Porto, que, concebido e moldado pelo grande José Maria Pedroto, viria a transformar-se no mais admirado e temido clube português a nível europeu, como bem documentam as vitórias em duas Taças dos Campeões Europeus e um triunfo na Liga Europa. O FCP alimentou a construção de um espírito ganhador, instilado por treinadores e jogadores que sentem a instituição que servem – por vezes, até, com excessivo fervor clubista -, sob a condução do veterano dirigente-patrão Jorge Nuno Pinto da Costa. No século XXI, o Porto ganhou 11 títulos de campeão nacional, contra 7 do SLB, 2 do SCP (em 2001/2002 e em 2020/2021) e 1 do Boavista (em 2000/2001).Mesmo assim, nas décadas de 70 e 80, o SCP conseguiu ganhar os campeonatos em 1970, 1974, 1980 e 1982. A seguir, o nosso “leão” iniciou longas travessias do deserto. Foram os tempos da “fome”. Só 18 anos depois, em 1999-2000, ganhámos o campeonato sob a improvável liderança técnica de Augusto Inácio, que rendeu, já com a temporada em curso, o italiano G. Matterazzi. E, dois anos depois, com os grandes Michael Schmeichel, na baliza, e Mário Jardel no ataque e o talentoso João Vieira Pinto, como municiador do ataque, voltámos s ser campeões. E foi a última vez (até este ano).  Parecia cada vez mais difícil voltar a vencer a Liga. Na verdade, o futebol premeia os que ganham e castiga os vencidos. Os jogadores dos campeões são muito valorizados e mais pretendidos. As receitas das provas europeias são superiores para os clubes com melhor posição no ranking. Os outros, normalmente, nem sequer acedem à Champions, que é, como se sabe, a Liga milionária. Daí que o SCP, obrigado por necessidades financeiras, no decurso da temporada anterior, a vender o passe do seu melhor jogador, o excelente Bruno Fernandes, tenha começado a presente época sem suscitar qualquer expetativa de favoritismo. Estava-lhe reservado, à partida, o terceiro ou o quarto lugar.Vindo de uma gravíssima e fraturante crise interna, boicotado por “brunos”, “brutos” e “brutamontes”, ninguém apostava um tostão furado no leão. Frederico Varandas, numa jogada de alto risco, própria de um Homem de coragem, contratou, a peso de ouro, o promissor e inteligente Rúben Amorim, que aceitou correr, com a mesma coragem, o risco anunciado.Lembro-me da resposta que ele deu a um jornalista que o questionou sobre a cobrança de que ele iria ser alvo em virtude dos balúrdios que o SCP tinha despendido com a sua aquisição e pelo facto de ir trabalhar num clube instável e especialista em devorar treinadores. Respondeu Amorim: “Pois, isso se tudo correr mal. Mas, e se correr bem?”. Rúben revelou-se um notável comunicador, inteligente e eficaz. Muito acima dos restantes: da vaidade simpática mas egocêntrica de Jesus e do temperamento intratável de Sérgio Conceição. E a verdade é que tudo correu bem. O Clube que formou Luís Figo e Cristiano Ronaldo e os seus sofredores adeptos bem o mereceram. E como eu sofri no final de alguns jogos, Santo Deus!Com efeito, com uma política de aquisições cirúrgicas – felicitações também a Hugo Viana – e com o empenhamento notável de alguns jovens talentos da formação, orientados em campo por um “super Coates” e com Pedro Gonçalves (Pote), um improvável mas genial rei dos goleadores, fez uma temporada limpa e cheia de raça, acompanhada pela “estrelinha” em alguns momentos, embora sem sombra de simpatia por parte dos comentadores televisivos, que, manifestamente, detestam o “verde”.Mas, neste ano diferente, em que só a falta de público nas bancadas poderá ter beneficiado o Sporting, o “verde” foi esperança concretizada, para grande júbilo dos seus adeptos, incapazes de controlarem o entusiamo no momento de festejar o título.Lisboa, 20 de maio de 2021