Hoje está a nevar. Pouco, é certo, mas neva. Isso não é notícia.

Ou, pelo menos, não é grande notícia. Ou talvez seja uma pequena notícia por serem, neste ano, os primeiros farrapinhos de tecido branco a cair de um céu cinzento. Ou então por ser pouca em comparação com o nevão lá mais a norte, de que as televisões estão a dar imagens. Estamos na Guarda em meados do mês de Novembro. É quase Inverno. E o Inverno é frio na cidade. E aqui, neste histórico planalto à beira da Estrela, costuma nevar. E quando neva na Guarda, ainda que pouco, já a Serra se cobre bem de branco. Concluo, pois: a Serra da Estrela já é a noiva do ano. E é mesmo. Estou a vê-la na televisão a passear-se pelos vales e montanhas.
Não é 1, nem 2, nem 3, nem uma dúzia. Também não são simples cidadãos de um qualquer país do terceiro mundo. São mais de 11 mil. São 11.258. São cientistas. Cientistas de 153 países. Isso já é notícia e deveria ser notícia de estrondo. São cientistas. Tantos. De tantos países. Juntos, de 153 países.
Juntos, convocados pela «obrigação moral», subscrevem um texto atestando a situação de emergência climática em que se encontra o nosso Planeta. Juntos, para alertarem a Humanidade para as ameaças existenciais da Terra. Isto sim, é notícia, como deveria ser notícia o despertar da «obrigação moral» de todos os cidadãos da Terra, de todas as pátrias, de todos os governos, todos os organismos, todas as cidades, todas as aldeias, todas as ruas, todas as casas de todas as famílias. Vamos, então, repetir para interiorizarmos bem a dimensão dos números e a dimensão do apelo. Para não cair no esquecimento.
São mais de 11 mil. São 11.258. São cientistas de 153 países. Juntos, para pedirem medidas concretas em várias áreas, para evitar um «sofrimento humano sem precedentes»: Energia, Poluentes, Natureza, Alimentação, Economia e População. Juntos, não para apresentarem elementos científicos novos, mas para apresentarem vários gráficos em que se mostram, à evidência, os efeitos da acção do homem sobre o ambiente nos últimos 40 anos. São cientistas, mais de 11 mil, que o dizem para abanarem as consciências daqueles que negam a situação ou daqueles que crêem que a ciência e a tecnologia tudo resolvem. Para não falarmos daqueles que, egoisticamente, vão dizendo que importa «viver» a vida enquanto cá andamos e que tratem da deles os que vierem depois.
São cientistas que, por «obrigação moral» retractam, em linguagem matemática, a situação dramática em que se encontra a Terra em razão de fenómenos de que sistematicamente temos vindo a ouvir falar: subida continuada do nível médio das águas do mar, aumento da temperatura do ar e das águas dos oceanos, fenómenos climatéricos extremos, e muitos, muito outros. Num dia são imagens de ilhas de plástico no alto mar e noutro é o contínuo empobrecimento da biodiversidade. Ontem noticiava-se que o último mês de Outubro foi o mais quente de sempre, hoje uma reportagem que estamos a ser envenenados com químicos. Ontem eram os incêndios, aqui e na antípoda Austrália, hoje é a «câmara de gás» em que se terá tornado a cidade Nova Deli, Índia.
Nem será necessário ir a notícias de tão longe. Talvez possamos encontrar bem perto de nós mudanças visíveis. A desertificação do país parece agravar-se de ano para ano e as ribeiras que atravessavam as nossas aldeias secaram ou levam pouquíssima água, mesmo durante os invernos. Mas nem que vivêssemos na mais verde das regiões da Terra, poderíamos estar descansados. Só há uma Terra onde «tudo está em tudo».
O problema é global e exige soluções globais por parte de quem detém o poder: internacionalmente, nacional e localmente. Por isso o texto dos cientistas, onde se evidencia a urgência de mudar a maneira como vivemos, termina assim: «Em Dezembro se verá o que os líderes dos governos e organizações dirão estar dispostos a fazer quando se reunirem em Espanha para a COP 25, a 25.ª conferência das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas.» a realizar de 2 a 13 do próximo mês de Dezembro. «Em Dezembro se verá.» Importa que se veja, de facto.
Poderemos ser tentados a julgar que os problemas enunciados transcendem as nossas possibilidades. E não deixará de ser verdade. Mas as notícias que diariamente nos chegam parecem contrariar tal verdade. Se é certo que por detrás das doenças do Planeta estão realidades de um sistema que nem compreendemos nem imaginamos, também é verdade que vamos vivendo tranquilos à sua sombra e à espera de milagres. Tranquilos ou em inconsciência de crianças, a começar pelos nossos governantes. Tão entretidos parecem andar com o deslumbramento do poder e a sua manutenção a todo o custo ou a sua conquista, que o futuro a médio e longo prazo parece passar-lhes ao lado. E isto lá para São Bento, o padroeiro da velha Europa que parece perdida nas águas do tempo.
Foi há 4 anos. O alerta vinha bem vivo de Roma. Não de um cientista, mas de alguém que sente bem o pulsar da Humanidade. No dia 24 de Maio de 2015, na Solenidade do Pentecostes e no terceiro ano do seu Pontificado, o Papa Francisco oferecia ao mundo a Carta Encíclica “Laudato Si” sobre o Cuidado da Casa Comum.
Agora neste final de 2019, seja ele um ano de graça, é uma multidão de cientistas a reconhecer que «as alterações climáticas estão a evoluir mais depressa do que muitos cientistas esperavam», declarando «clara e inequivocamente, que o Planeta Terra está a enfrentar uma emergência climática» e que se impõe um substancial aumento nos esforços para evitar o “sofrimento incalculável” que a Humanidade terá de suportar caso não haja uma mudança de estilo de vida.
Foi há 4 anos. De Roma era enviada «a cada pessoa que habita este planeta» uma longa carta com a «visão integral da ecologia, construída a partir do conceito de “ecologia humana” do Papa Bento XVI», acompanhada de uma dura crítica ao estado em que se encontra na actualidade a economia global e em defesa dos mais pobres, entre os quais se encontra «a nossa terra oprimida e devastada». E tudo argumentado com razões de natureza antropológica e teológica.
Reler esta encíclica à luz do que diz uma multidão de cientista poderá ter um sabor amargo, mas importa suportá-lo como bênção. Ali não se descreve só «O que está a acontecer à nossa casa» (Cap. I), nem se aponta só para a teologia de «O Evangelho da criação» (Cap. II), nem também se se mostra somente «A raiz humana da crise ecológica» (Cap. III). Ali se defende «Uma ecologia integral» (Cap. IV) e se traçam «Algumas linhas de orientação e acção» (Cap. V), terminando a carta encíclica na defesa de uma «Educação e espiritualidade ecológicas» (Cap. VI).
Se os cientistas dizem que «Para garantir um futuro sustentável temos de mudar a forma como vivemos» o Papa Francisco escreve que «muitas coisas devem reajustar o próprio rumo» a «apontar para outro estilo de vida».
Se «os desertos exteriores se multiplicam no mundo, porque os desertos interiores se tornaram tão amplos», como disse um dia Bento XVI, então, conclui o Papa Francisco, «a crise ecológica é um apelo a uma profunda conversão interior».
«Ecologia integral» e «conversão ecológica» são exigências de autêntica mudança na «forma como vivemos» e enveredar por «outro estilo de vida». E isso poderá começar pela «ecologia da vida quotidiana»: na casa, na aldeia, no bairro, na cidade, no local de trabalho e na vigilância activa sobre aqueles que nos governam.
Já não podemos dissociar por mais tempo as gerações futuras da nossa responsabilidade «sobre o cuidado da casa comum». Amanhã ela será notícia.
Guarda, 14 de Novembro de 2019