Igreja

Celebramos no IV Domingo do Tempo Pascal o Dia mundial de Oração pelas Vocações. Falar de vocação, na Igreja, é afirmar a certeza de que cada filho de Deus é chamado por Deus a uma determinada missão, dentro da Igreja, em favor dos irmãos. Descobrir a vocação é descobrir o sentido da vida, a razão pela qual existimos.

Ao longo do tempo pascal, escutando em cada Domingo a Palavra de Deus, percebemos como os primeiros discípulos chegaram à fé em Cristo ressuscitado pouco a pouco e não de um momento para o outro. Para eles como para nós, a fé é um caminho que se vai fazendo ao longo da vida.

Vaticano

O Evangelho apresenta-nos os discípulos reunidos numa casa com as portas fechadas. E apresenta-nos, sobretudo, um discípulo com as portas do coração fechadas à fé. Todavia, apesar de nos termos habituado a ver Tomé como o discípulo incrédulo, cremos na utilidade do seu testemunho. Já um Papa, S. Gregório Magno, dizia: “a incredulidade de Tomé foi mais útil à nossa fé do que a fé dos discípulos crentes”.
Jesus ressuscitado mostra a S. Tomé as chagas dos pés, das mãos e do lado aberto. Graças a Tomé, portanto, sabemos que as marcas do corpo ferido de Jesus permanecem no seu corpo ressuscitado, no corpo glorioso. O Filho de Deus encarnou e tocou a nossa miséria, e a nossa miséria deixou marcas n’Ele. O amor de Cristo pela humanidade permanece um amor ferido, e este amor ferido chama-se, hoje, Misericórdia.
“Aproxima a tua mão e mete-a no meu lado” é a resposta condescendente e humilde de Jesus à fé limitada de Tomé. Apesar de querer provas para acreditar (“se não vir nas suas mãos o sinal dos cravos…”), acaba por dar provas de uma fé total: “Meu Senhor e meu Deus!” O evangelho não diz se Tomé chegou a tocar nas chagas de Cristo, mas deixa claro que foi tocado por elas!
“Meu Senhor e meu Deus!” é expressão de uma fé total e pessoal. Uma fé total porque de Jesus nada de mais alto se pode dizer senão que Ele é Senhor e Deus, como o Pai e o Espírito Santo. E uma fé pessoal, graças à qual Cristo não é simplesmente Deus e Senhor, mas é o meu Deus, o meu Senhor, o Senhor da minha vida, cuja presença (mãos e pés) me é familiar.
Jesus entra numa casa que tem as portas fechadas. Mas sobretudo, entra num coração que ao início está fechado, mas que se abre quando é tocado pelo amor ferido, humilde e misericordioso de Cristo. A fé é um dom oferecido a quem não se fecha teimosamente nas suas certezas, a quem descobre nas chagas de Cristo as marcas de um amor pessoal, o amor do meu Senhor, do meu Deus.
Permanece aberto, após a ressurreição, o lado trespassado pela lança do soldado. Daquele lado aberto, de onde saiu sangue e água, continua a brotar o sangue da Eucaristia e a água do Baptismo. Aquele lado estará eternamente aberto, o seu coração eternamente disponível para ser tocado e para nos tocar, nos Sacramentos.
A fé cristã é autêntica quando é pessoal: Meu senhor e meu Deus! Ao mesmo tempo, só é verdadeira se é partilhada: é a fé dos discípulos reunidos em volta de Jesus, na mesma casa, no primeiro dia da semana, o Domingo. E a fé pessoal e partilhada é fonte de felicidade, como Jesus proclama: “Felizes os que acreditam sem terem visto”.
Só quem vive com coração aberto pode chegar à fé. Mas só vive a fé de verdade quem abre o coração aos outros: entre os que tinham abraçado a fé, diz a primeira leitura, “não havia qualquer necessitado”. E a razão é que a fé os tornava atentos e generosos face às necessidades dos outros. A crise económica de então, sem as teorias milagrosas dos messias economistas de hoje, foi resolvida pelo milagre da partilha, do amor efectivo e concreto, da caridade, fruto da fé.

Desde a Páscoa, a nossa vida não é a mesma coisa. Depois do que aconteceu, nada pode ficar igual. Cristo morreu e ressuscitou e,