Uma “expectativa gorada”! Tal foi a reação imediata, mal saiu a notícia de que Francisco não tinha dado luz verde à ordenação de homens casados, na Amazónia.

A Exortação Apostólica, esperada com tanta ansiedade, havia ignorado, pura e simplesmente, a questão. É silenciado, em absoluto, o tema mais falado e que ganhara rápido interesse nas conversas sobre o Sínodo para a Amazónia, realizado em Roma de 6 a 27 de Outubro passado. De súbito, a Amazónia convertia-se num horizonte profético, em que as sombras da madrugada iriam dar lugar a um radioso sol nascente. O profeta era, evidentemente, o Papa!E contudo, era bastante previsível que Francisco procedesse como procedeu. Deixem-me explicar, sem virem já com o consabido: “agora, também eu!”.Na realidade, se a maioria esperava um gesto rasgado e histórico do Papa, também havia quem não acreditasse que ele o fizesse. Pela minha parte (como poderão recordar algumas pessoas com as quais falámos sobre o assunto), não só manifestei a minha desconfiança, mas ia afirmando a convicção de que essa não era uma questão que o Papa ousasse decidir só por si próprio. Nem sequer que isso fosse decidido por um simples Sínodo. Por isso desde há anos que eu venho defendendo a urgência de um novo Concílio Ecuménico: o Vaticano III. Não poucos, padres e leigos, me ouviram expressar essa ideia “peregrina”, até com alguma teimosia, sobretudo em reuniões e instâncias eclesiásticas.  Agora, a prova está aí! E eu compreendo inteiramente o Papa Francisco.  Por isso não fiquei nada dececionado. Achei simplesmente lógico, natural. Porquê? Basta conhecer a história da Igreja: sempre as questões dessa natureza foram decididas apenas nos Concílios. E, designadamente, esta questão da obrigatoriedade do celibato eclesiástico. Sim, é preciso conhecer a história da fusão destas três palavras, consubstanciadas numa única ideia. Sobretudo da obrigatoriedade. É preciso destrinçar o peso que, cada uma delas, veio a ter naquilo que, depois do Concílio de Trento (séc. XVI), viria a constituir um elemento identitário do sacerdócio católico romano. Sim, porque entre os católicos de rito Oriental nunca foi exigida essa obrigatoriedade, sempre tendo coexistido entre eles clérigos célibes e clérigos casados. Para a Igreja Católica romana ou de rito Latino, porém, impôs-se a norma disciplinar do celibato obrigatório, como condição sine qua non para o acesso ao sacerdócio.Lembremos que sempre na Igreja, a par dos casados, existiram homens e mulheres célibes, tendo-se desenvolvido uma teologia do celibato como dom ou carisma. Isso aconteceu especialmente a partir da vida monástica, entendendo-se a opção pela vida celibatária como especial consagração a Deus, o chamado “estado de perfeição”. É que, ampliando o sentido de certas passagens do Novo Testamento, alguns teólogos, chamados Padres da Igreja, viriam a fazer a exaltação do celibato e da virgindade, mesmo em detrimento da santidade que o sacramento do matrimónio pode proporcionar. Essa foi a tendência que se impôs na Idade Média, agora designadamente para a vida sacerdotal, primeiro na Península Ibérica (concílio de Elvira, séc. IV) e, progressivamente, na inteira Igreja latina. Não obstante, foi grande a resistência à obrigatoriedade dessa lei, tendo demorado mais de mil e duzentos anos até à sua imposição canónica pelo concílio de Trento (sé. XVI).Todos temos conhecimento do enorme esforço teológico e argumentativo para defender a excelência do celibato sacerdotal, bem como as suas vantagens de ordem pastoral. Entre as últimas tomadas de posição sobressai a do Papa emérito, Bento XVI, com o descarado aproveitamento que dela quis fazer o epígono dos conservadores, o cardeal africano Robert Sarah. Muitos acreditam que a publicação oportunista do seu último livro (a que este ultra-conservador quis associar o nome de J. Ratzinger, e antecipando-se justamente ao documento papal), terá exercido forte pressão sobre o espírito de Francisco, para evitar um conflito tão grave que poderia provocar um cisma na Igreja. Poderemos, porém, interrogar-nos sobre o significado de o Papa nada ter dito sobre a dispensa da lei do celibato, como se esperava, ao menos para os amazónicos viri probati, ou seja, homens casados que ali têm dado “boas provas”, homens apostólicos e de conduta edificante, permitindo que sejam ordenados sacerdotes. De facto, não disse que sim, que ele ia acabar com a obrigatoriedade do celibato, nessas condições específicas de sujeito e de espaço geográfico. Mas também não disse que não. Para já, limitou-se a falar da “inculturação do ministério”.  Que terá querido dizer, como bom jesuíta, ao acentuar que “o modo de configurar a vida e o exercício do ministério dos sacerdotes não é monolítico” (nº 87)? Mais ainda, para onde quererá apontar, com a afirmação: “Nas circunstâncias específicas da Amazónia, (…) é preciso encontrar um modo para assegurar este ministério sacerdotal” (nº 89)?  Não terá Francisco começado a abrir uma fresta para que, proximamente, quando a conjuntura vaticana for menos adversa (só Deus sabe como…), a obrigatoriedade do celibato seja levantada, e não só para a Amazónia?