Depois que contemplámos o poder de Jesus sobre as forças da natureza, ao acalmar a tempestade unicamente através da sua palavra

, hoje presenciamos o poder de Jesus que devolve a vida também apenas com a palavra (“levanta-te e anda”) e dá a saúde a quem só O tocou.
As duas histórias têm algo em comum: A menina que chega a morrer tem doze anos, os mesmos doze anos que a mulher levou para se tentar curar, em vão; a mulher tocou com a sua mão o manto de Jesus, assim como Jesus tomou a menina pela mão; a cura da mulher que viveu a doença como um avançar lento da morte antecipa a cura da menina que realmente experimentou a morte.
Perante a acção de Jesus sobre a tempestade, os discípulos ficaram cheios de temor e hoje, diante da ‘ressurreição’ da filha de Jairo, “ficaram todos maravilhados”. O temor de Deus é o princípio da sabedoria e o poder de Deus, manifestado em Jesus, o princípio da salvação.
A gravidade da situação da mulher que “sofria de uma perda de sangue” só a percebemos tendo em conta a mentalidade da época. Ajudados pelo livro do Levítico (Lev 15, 19-27), compreendemos até que ponto a doença da mulher a colocava numa posição difícil, lesando a sua relação conjugal, social e religiosa. Não a doença em si, mas a maneira como vem interpretada pela sociedade, provoca na mulher um sofrimento atroz. Percebe-se, então, o medo e, ao mesmo tempo, a ousadia quando se coloca entre a multidão para tocar Jesus. Nela contemplamos o poder da fé para vencer preconceitos, dar coragem, libertar, aproximar-nos de Deus. Eis a verdade e o alcance da declaração de Jesus: “a tua fé te salvou”.
É a mesma fé que leva Jairo a Jesus, seguro do seu poder para curar. E quando, entretanto, lhe trazem a notícia que a sua filha já está morta, Jesus diz-lhe, mesmo agora: “não temas, basta que tenhas fé”. Depois que Jesus devolve a vida à menina, recomenda aos pais e aos três discípulos presentes que “ninguém soubesse do caso”. Manda agora calar os discípulos, os mesmos a quem depois da Páscoa dará a ordem contrária: “ide por todo o mundo e proclamai o Evangelho a toda a criatura”. Jesus não veio apenas para prolongar a vida na terra, mas para nos dar acesso à vida no Céu. É na ressurreição que se manifesta a verdade sobre Jesus, Filho de Deus e Senhor, e todo o seu poder sobre a morte, e por isso só quem tem fé na ressurreição e na vida eterna pode falar de Jesus.
Na atitude da mulher e de Jairo, vislumbramos o poder da fé. Embora ainda limitada, ela é já símbolo da verdadeira fé, a fé cristã, aquela que nasce da Páscoa da ressurreição. A fé no poder ilimitado de Deus dá forças para caminhar quando nos querem parar; dá entusiasmo para falar quando nos querem calar; para esperar na vida eterna quando a doença e a morte nos fazem temer; para nos colocarmos do lado de Deus na luta contra todos os instrumentos de pecado e de morte que nos habitam ou nos circundam. Também a nós, em todas estas situações, Jesus repete: “Não temas; basta que tenhas fé