O texto do evangelho de hoje costuma marcar mais ou menos o meio do evangelho de Lucas.

Até aqui Jesus andou preferencialmente pelas terras da Galileia. Agora, tomada “a decisão de Se dirigir a Jerusalém” (Lc 9, 51), encontramo-l’O já nessa viagem derradeira que marcará decisivamente a Sua vida e missão. Pelo caminho, os discípulos continuarão a aprender com o Mestre, inclusive com os contratempos. E na primeira parte deste texto escutámos um deles: ao passarem por uma povoação de samaritanos, os habitantes não quiseram receber Jesus (v. 53). Sabemos, pelo que nos é dito no Evangelho, que judeus e samaritanos não se davam muito bem. Mas também é verdade que esta não é a primeira vez que Jesus é expulso de uma povoação. Por isso nos perguntamos como é que, a par com as multidões entusiasmadas que O seguiam, surgem pessoas e povoações a agir assim contra Jesus?

Se fizermos um exercício de memória, por certo nos lembraremos daquele episódio de desavença com os habitantes de Nazaré, a Sua própria terra. Cheios de furor contra Jesus, por este se ter proclamado profeta, “lançaram-no fora da cidade e levaram-no ao cimo do monte, a fim de o precipitarem dali abaixo” (Lc 4, 29). Mais tarde, no outro lado do Lago da Galileia, depois da cura de um homem possesso e de uma vara de porcos se ter afogado, “toda a população da região dos gerasenos pediu a Jesus que se afastasse deles” (Lc 8, 37). E a mais escandalosa expulsão de Jesus, dá-se em Jerusalém, depois da Sua infame condenação à morte. Carregado-o com uma cruz, conduziram-no para fora da cidade, onde o crucificaram (Lc 23, 26.33). O que há de comum nestas quatro passagens? Jesus não é recebido porque desinstala interesses, comodismos, hábitos!

Hoje não é assim tão diferente! Sempre que a voz do Evangelho se torna incómoda, rapidamente a tentam abafar, silenciar, esconder. Podemos dizer que, também hoje, muita gente continua a não querer receber Jesus ou a expulsá-Lo. O mau acolhimento por parte dos samaritanos representa, por um lado, as dificuldades que os cristãos de todos os tempos têm de enfrentar quando, configurados com Ele, O testemunham. Por outro lado, e pior ainda, representa aquelas ocasiões em que também nós, cristãos, silenciamos a Sua voz, porque é exigente connosco, ou desinstala os nossos interesses mesquinhos, ou põe em causa os nossos hábitos, por vezes tão paganizados. Infelizmente, são inúmeras as ocasiões em que também nós O silenciamos, e somos tentados a expulsá-l’O da nossa vida, ou ainda, como dizia o Papa Francisco, em Outubro passado, na casa de Santa Marta, a deixá-l’O simplesmente fechado na igreja.

Senhor Jesus, hoje continuas a ter de passar adiante de muitas pessoas que não Te querem receber. E, às vezes, somos nós, cristãos, que não Te acolhemos devidamente. Não permitas que os nossos olhos se fechem e não Te reconheçam. Não permitas que nós, cristãos, Te fechemos dentro de igrejas vazias!
Amén.