D. João de Oliveira Matos


Não é pequena graça podermos tomar parte na celebração de uma data jubilar, sobretudo se ela é tão expressiva como esta que assinala o Centenário da Liga dos Servos de Jesus. Experimentamos a certeza da palavra evangélica: “Felizes os vossos olhos, porque vêem, e os vossos ouvidos, porque ouvem”!  E com maior razão se por esta efeméride nos sentimos tocados, não de modo periférico, mas atravessando-nos até à medula do espírito. Move-nos, pois, uma memória agradecida, justificação destas palavras que desejam aliar a homenagem e o testemunho.
A minha gratidão a esta grandiosa Obra, agora centenária, deve-se a um misto de razões, umas de ordem pessoal e familiar, outras de cariz institucional. As primeiras, são de reconhecimento, por uma profunda impregnação espiritual que muito contribuiu para modelar a minha personalidade, desde a infância. Na realidade foi no ambiente familiar que, de forma muito natural, e com muita frequência, ouvia os pais e a madrinha a falarem com visível afeto desta Liga e, invariavelmente, do seu Fundador. Em casa entrava, semana a semana, o pequeno jornal “Amigo da Verdade”, que era avidamente lido e animadamente comentado. Chegava também a revista “Luz e Vida”, com apreciada doutrina e interessantes informações. Depois eram as cartas ou um simples postal, endereçado à madrinha por alguma das Superioras das diversas Casas, especialmente do Outeiro, mas também da Cerdeira e do Rochoso, a lembrar os Retiros para homens ou para senhoras, para raparigas ou para rapazes. E lá eram contactados pessoalmente os voluntários e as voluntárias  -algumas das quais, no fim do Retiro, decidiam entrar para “Servas”. Por graça de Deus, esse foi, por todas as paróquias, o caminho da descoberta de tantas vocações que encheram as Casas da Liga!
Já estamos a ver como, por aqueles anos, nas mais variadas freguesias da nossa Diocese, havia zelosas servas externas a trabalhar na vinha do Senhor, em estreita ligação com as Comunidades das servas internas. Eram também elas as principais animadoras da vida paroquial, desde as devoções diárias, à catequese e aos encontros de espiritualidade. Observemos, porém, que o mais significativo é que não se tratava de uma espiritualidade desencarnada, antes se traduzia em expressões concretas de caridade autêntica, por exemplo, dando resposta imediata às necessidades de crianças que, ficando na orfandade, eram encaminhadas para as Casas da Liga, encontrando resposta adequada para meninos ou para meninas, no Outeiro de S. Miguel, em Manteigas ou no Rochoso.
Assim se ia fazendo realidade aquela que foi a profética intuição do Fundador: fazer ressurgir algo semelhante à vida conventual, por toda a Diocese, na vida de fé, de oração, de reparação, na fraternidade geradora da alegria cristã.
 Por isso, nesta gloriosa efeméride do Centenário da Liga, eu quero, pela parte que me toca, deixar bem expressa a minha homenagem a todas essas formas de colaboração eclesial, que foi suscitada e fomentada na força de um carisma específico, motor decisivo da espiritualidade diocesana, com frutos cuja quantidade e qualidade só Deus conhece!
Mas quero também homenagear todos os Servos e especialmente as incontáveis Servas internas que, ao longo destes cem anos, gastaram as suas vidas ao serviço das variadas Casas, maioritariamente na Diocese da Guarda, mas também noutras dioceses de Portugal. A par de tanto bem levado a efeito nos domínios da educação, da instrução e da formação profissional, é justo que salientemos a imensa dedicação aos sacerdotes, serviço eclesial que sempre foi timbre da Liga cuidar com a maior abnegação.
Deus seja louvado, por esta celebração festiva do 1º Centenário, momento em que espontaneamente recordamos tantos rostos e vidas que, com maior visibilidade ou no humilde apagamento diário, atingiram alto grau de virtude e santidade. Na fé e na confiança, pedimos que a força do Espírito Santo renove a vitalidade e a persistência deste carisma que não deixará de produzir novos frutos, para que Jesus Reine!