“Os Sr.s cardeais elegeram-me para Bispo de Roma. Venho do fim do mundo”.

 

Temos ainda na nossa memória estas primeiras palavras pronunciadas pelo Papa eleito em 13 de março de 2013, que veio de Buenos Asires, na Argentina.
E a surpresa continuou, quando, assomando à varanda da Basílica de S. Pedro, antes de abençoar o Povo, pediu para ser abençoado por ele, assim como foi surpresa o nome de Francisco que escolheu para lembrar o grande Santo de Assis que viveu o sonho de um mundo novo inspirado na vivência espontânea do Evangelho.
A exortação apostólica sobre a alegria do Evangelho (Evangelium Gaudium, novembro de 2013) é o seu texto programático, que lembra a toda a Igreja quala sua identidade e missão – evangelizar. Por sua vez, preocupação com os pobres e, em geral, com as periferias, exige que seja uma Igreja em saída, mais preocupada com o mundo do que consigo própria, uma Igreja que deixa autoreferencialidade para se colocar decididamente ao serviço.
A exortação apostólica pós-sinodal sobre a Família (Amoris Letitia, março de 2016) representou outra importante novidade deste pontificado; novidade que não foi de doutrina, mas dos caminhos apontados para aplicar a doutrina de sempre às muitas situações novas que condicionam a vida das famílias. O convite à respon-sabilidade pessoal do discernimento tem aplicação imediata nas muitas fragilidades que marcam a vida dos casais, na atualidade e que a Igreja, sobretudo através dos seus pastores, tem de saber acompanhar, discernir e integrar.
Outra surpresa já tinha sido a publicação da sua primeira encíclica (Laudato sí, maio de 2015) voltada para o assunto das mudanças climáticas. Podemos dizer que esta encíclica antecipou, em meio ano, e certamente também inspirou as resoluções da Cimeira de Paris (final de 2015), infelizmente muito pouco aplicadas.
O assunto da Fratelli tutti (outubro de 2020) sobre a fraternidade universal liga muito claramente o Papa ao santo do qual adotou o nome, S. Francisco de Assis. Também resultante do diálogo inter-religioso, o assunto desta encíclica coloca claramente a Igreja e o Evangelho numa atitude de resposta às grandes necessidades do mundo de hoje. Sem fraternidade e sem a reconciliação que ela supõe e exige, o futuro do mundo fica em perigo, como constatamos que está a acontecer na atualidade.
Grande novidade deste Pontificado foi a proposta de caminho sinodal apontada a partir da celebração do cinquentenário da criação do Sínodo dos Bispos, em 2015. Desde aí a Igreja é chamada a alargar o horizonte da sinodalidade e reconhecer que a sua identidade mais funda é ser toda ela sinodal, e não apenas o Colégio dos Bispos. A importância deste assunto na vida da Igreja e também na sua relação com o mundo está espelhada no Sínodo sobre sinodalidade convocado para se desenvolve em duas sessões, estando a segunda já aprazada para o próximo mês de outubro.
As duas viagens que o Papa fez a Portugal, uma em 2017 para a canonização dos pastorinhos e outra, mais prolongada, no ano passado, para a jornada mundial da Juventude deixaram forte rasto entre nós, com interpelações para dentro e para fora da Igreja.
Podemos acrescentar que o estilo de liderança do Papa Francisco, baseado não no autoritarismo mas na grande capacidade de escuta e de atenção às realidades sociais e humanas, é caminho para ser seguido dentro da Igreja, mas também com vantagem para os líderes em geral, sobretudo pelo exemplo de proximidade às pessoas e pela insistente recomendação para sabermos cuidar bem uns dos outros.
A preocupação pela paz, incluindo naqueles países em que os conflitos existem, mas têm menos visibilidade na opinião pública, é outro assunto recorrente nas intervenções do Papa. Isto também, porque o objetivo da paz é fundamental na missão da Igreja e para tal se organiza a própria diplomacia vaticana.
A terminar, não deixamos de reconhecer que este Papa, com a sua determinação de enfrentar as grandes questões que implicam a vida das pessoas dentre e fora da Igreja, está a encontrar algumas, resistências vindas sobretudo da fação mais conservadora da Igreja.
Estamos certos de que a Igreja em si mesma está com o Papa, nos importantes caminhos que continua a apontar-nos, com a linguagem e as surpresas a que já nos habituou.
+Manuel da Rocha Felício, Bispo da Guarda