In memoriam In memoriam 


3. O Bispo e a Obra (2)A anteceder todas estas decisões esteve, certamente, o périplo exaustivo que o Bispo fez por toda a Diocese inteirando-se não só dos problemas religiosos, mas também das questões sociais que afligiam o povo. A enumeração que se segue dos organismos de assistência social criados pelo Bispo é o retrato da preocupação que aquele teve para minorar as dificuldades dos menos favorecidos. Em Beja criou, na periferia da cidade, o Bairro de Nossa Senhora da Conceição, para albergar famílias pobres.Dinamizou as Conferências de S. Vicente de Paulo.Criou da Sopa dos pobres “S. Sisenando”.Criou e desenvolveu a Caritas Diocesana para apoiar as famílias necessitadas mediante a distribuição de alimentos e roupas.O Padre Joaquim Fatela, que havia colaborado com o Padre Américo na Casa do Gaiato, criou em Beja uma instituição similar, a Casa do Estudante, onde acolheu crianças abandonadas ou com dificuldades familiares, dando-lhes formação profissional e proporcionando-lhes a escolaridade nos seus vários graus.No plano pastoral, fomentou o surgimento de novas vocações sacerdotais e religiosas, algumas delas tardias.Em Janeiro de 1924 fundou o “Eco Pacense”, jornal oficial da Diocese, e em 18 de janeiro de 1928 o semanário católico “Notícias de Beja”.Organizou Missões Populares em todos os concelhos da Diocese e, em 1947, fez com que a imagem de Nossa Senhora de Fátima que está na capelinha das Aparições, percorresse a Diocese avivando a fé de todos.Aproveitou as tradições populares para cativar as populações para trazer à Igreja algumas comunidades. Dentro dessas tradições destaca-se o cante alentejano, sempre presente nas comunidades rurais. Não estamos longe da verdade ao afirmar que se o cante é Património da Humanidade, muito o deve a três padres da Diocese de Beja. O primeiro foi o Padre António Alfaiate Marvão, que de caneta e papel na mão, recolheu nada menos que 227 modas alentejanas, profanas e religiosas. Vocação tardia, ordenou-se aos 35 anos, alentejano de gema, conseguia passar imediatamente para o papel a música e letra das canções que ouvia.O segundo foi o Padre José Alcobia, pároco de Ferreira do Alentejo, que fundou e dirigiu o grupo coral dos trabalhadores da referida vila.Por fim, o Padre António Júlio da Silva Cartageno, meu condiscípulo durante alguns anos, que deu continuidade ao trabalho do Padre Marvão, recolhendo todas as modas de cariz religioso. Atualmente é uma autoridade nacional no domínio da música sacra.Tive a sorte de os conhecer a todos e de ouvir ao vivo alguns grupos de cantares por eles fundados.Por fim, não posso esquecer a preocupação de D. José com a formação do clero diocesano, enviando alguns sacerdotes para a frequência de cursos superiores em Espanha e em Itália.A última imagem que guardo de D. José do Patrocínio Dias refere-se à cerimónia realizada na Sé de Beja por ocasião do seu 80.º aniversário, em 23 de junho de 1964. D. José assistiu à cerimónia sentado na sua cátedra, enquanto D. António Cardoso da Cunha, Bispo Auxiliar desde 9.3.1956, celebrava a missa solene. O Padre Alberto Geraldes Batista fez a homilia e o elogio ao homenageado, enquanto na assistência estava o Ministro Arantes de Oliveira e esposa. D. José manifestava sinais do avanço da doença de Parkinson, bem visíveis no momento em que agradecia os parabéns dos presentes.Em 1962 ainda quis participar na primeira sessão do Concílio Vaticano II, mas as forças foram-se esvaindo e em 24 de outubro de 1965 falecia em Fátima.Os seus restos mortais, após as cerimónias fúnebres celebradas na Sé de Beja, em que participei, seguiram para um jazigo no cemitério da cidade, mas foram transladados, mais tarde, para um túmulo na Sé Catedral, onde repousa.Se a maior recompensa lhe foi dada pelo Pai, os homens também não o esqueceram. Assim em 10.7.1920 era condecorado com o grau de Comendador da Ordem Militar de Cristo; em 31.12.1932, recebia a Grã-Cruz da Ordem de Benemerência; e em 11.5.1946 a Grã-Cruz da Ordem Militar de Cristo.António Soares
Nota final: Para a elaboração deste texto consultei as seguintes obras / artigos:1-José Gonçalves Serpa .“Enciclopédia Diocesana”, Gráfica de Gouveia, 19612-António Mendes Aparício, “História da Diocese de Beja” in www.diocese-beja.pt.3-Património do Cante Alentejano, in htpps://Retentiva.wordpress.com/category/canto.4-António José Ferreira, “António Cartageno”, in MELOTECA – Sítio de Músicas e Artes, in htpps://www.meloteca.com