No Domingo anterior, Jesus levou-nos a reflectir sobre a nossa capacidade e disponibilidade para acolher a sua Palavra,

qual semente colocada nos nossos corações a fim de dar fruto abundante pela prática das boas obras. Aqueles que se mostram boa terra e fazem frutificar a Palavra de Deus, tornam-se, por sua vez, sementes do Reino, instrumentos de Deus ao serviço da vida, da justiça e da paz. Por isso, se então nos dizia que a semente simboliza a sua Palavra, hoje afirma que “a boa semente são os filhos do Reino”.
Na vida natural, a semente, acolhida pela terra, cresce e dá fruto e o fruto, por sua vez, contém em si mesmo novas sementes. Assim na vida sobrenatural: a Palavra de Deus, quando é acolhida no coração humano, cresce e dá fruto abundante e este fruto (que é a caridade, o amor em acto), torna-se, por sua vez, semente de vida nova, o Reino de Deus (ou Reino dos Céus, como lhe chama S. Mateus).
Este Reino Deus o vai construindo ao longo da história humana através da vida, da palavra e dos actos dos filhos do Reino, através das vidas dos santos, conhecidos e anónimos. Um olhar puro e de fé é capaz de reconhecer esses sinais da presença e da acção de Deus, sem deixar de notar a presença do joio, os filhos do Maligno que neste mesmo mundo fazem crescer a mentira, a injustiça e a morte. O trigo e o joio crescem lado a aldo, o bem e o mal coexistem no coração humano e na sociedade. Que fazer? Revoltar-se, perder a coragem de continuar a semear o bem, acusar Deus, limitar-se a apontar o dedo àqueles que precipitadamente consideramos dos maus? Eis que Jesus, em três parábolas, nos dá uma lição de paciência, perseverança e esperança, humildade.
A paciência de Deus, reflectida na do senhor que prefere esperar até à ceifa (símbolo do juízo final) para separar o trigo e o joio, é também descrita na oração da primeira leitura: “Vós, o Senhor da força, julgais com bondade e governais-nos com muita indulgência”. Esta paciência de Deus deve reflectir-se em nós, os servos da seara que é o mundo, sem cairmos no pecado da impaciência e dos pré-juízos, pois apenas o dono da seara conhece o coração humano e a verdade das suas acções.
Num mundo onde o mal faz mais barulho que o bem, onde são notícia os que matam e fazem guerra e não os que anonima e corajosamente perdoam e constroem paz, onde certas formas de pecado são enaltecidas e as virtudes ridicularizadas, para muitos filhos do Reino é difícil perseverar no caminho proposto por Jesus e ter esperança de que qualquer acção boa, por parecer inútil e insignificante como um grão de mostarda, possa crescer e fazer a diferença numa floresta de indiferentes. A eles Jesus diz que também a menor das sementes se pode tornar “na maior das plantas da horta”, pois se somos pequenos e se parecem insignificantes as nossas vidas, é para que na nossa pequenez se revele a grandeza de Deus e, na nossa fraqueza, venha em nosso auxílio o Espírito Santo.
A humildade, característica de Deus, é-nos pedida na última das três parábolas. A humildade, virtude daquele que se esconde detrás do bem que faz assim como é virtude do Criador que Se esconde detrás das suas criaturas, é simbolizada no fermento que se esconde dentro da massa. Na medida em que desaparece, mais eficaz se torna a sua acção de transformar e fazer crescer a massa.
Se queremos ser contados entre os filhos do Reino, façamos nossa a paciência de Deus, com entusiasmo e esperança semeemos o bem mesmo quando as nossas acções parecerem inúteis e insignificantes e, sem ruído, sem nos fazermos notar, de um modo discreto mas, precisamente por isso, eficaz, rememos contra a maré da injustiça, do pecado e da morte, deixando que seja Deus, e só Ele, a separar, no fim dos tempos, o trigo do joio, e a instaurar, de modo definitivo, o Reino dos Céus.