A mensagem transmitida por Jesus no evangelho deste Domingo é tão clara que seria supérfluo pretender explicar o seu sentido.

De facto, Jesus não só apresenta uma parábola como assume Ele próprio a tarefa de explicar aos seus discípulos, a nós, “o que significa a parábola do semeador”.
Este evangelho é muito propício para nos desafiar à reflexão, a um verdadeiro exame de consciência: que importância tem a palavra de Deus na minha vida? Com que devoção e interesse a leio, escuto e medito? Semanalmente e diariamente, que tempo e espaço lhe dedico, para que ela possa crescer e dar fruto na minha vida? Que escolhas já fiz, que atitudes adoptei, que comportamentos já fui capaz de mudar por causa da palavra de Jesus? Que implicações concretas tem o evangelho na minha vida? Cada um de nós não pode evitar confrontar-se com este tipo de questões, se quer levar a vida cristã a sério e assumir-se como autêntico discípulo de Cristo.
Outras passagens do evangelho nos mostram como a relação com a Palavra de Deus é decisiva. Pode ser oportuno recordar que acolher a Palavra de Deus e pô-la em prática é o critério pelo qual Jesus nos considera seus discípulos: “Minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática” (Lc 8, 21). Acolher a Palavra de Deus e pô-la em prática é condição para uma fé, vida e vocação sólidas: “Todo aquele que escuta as minhas palavras e as põe em prática é como o homem prudente que edificou a sua casa sobre a rocha”.
Se da escuta e da prática da Palavra de Deus dependem a solidez da nossa vida cristã e a verdade da nossa pertença à família de Jesus, avaliar se o meu coração é terreno favorável para que a Palavra nele semeada cresça e dê fruto é indispensável.
A parábola do semeador que hoje nos é apresentada é colocada por S. Mateus num contexto em que uma série de pessoas revelam muita dificuldade em acolher a sua Palavra ou até mesmo a rejeitam: os discípulos de João Baptista têm dúvidas sobre quem seja Jesus; tantos dos seus contemporâneos dão mostras de falta de fé; muitos dos seus conterrâneos rejeitam-n’O e recusam-se a ver nos milagres sinais da presença do Reino de Deus; os sábios e inteligentes fecham-se à sua revelação; os fariseus e doutores da Lei procuram encontrar pretextos para o acusarem e condenarem.
Esta série de pessoas que não só não acolhem mas mesmo rejeitam a pessoa de Jesus, as suas acções e palavras, são exemplos concretos de terreno pedregoso, duro e cheio de espinhos onde a palavra de Jesus não pode penetrar. Agora é o momento de Jesus nos desafiar e questionar se estamos entre eles ou se abrimos o nosso coração à sua palavra para que em nós ela dê fruto abundante.
A nós é dado a conhecer o mistério do Reino presente na vida e na palavra de Jesus. Vemos os sinais da sua presença no mundo; ouvimos a sua palavra que o Espírito Santo nos faz compreender. Temos tudo o que precisamos para ser família de Cristo, para nos comprometer-nos na missão da Igreja, para vivermos solidamente enraizados nos valores do Evangelho. Mas a graça de Deus não nos tira a liberdade nem Jesus se impõe a ninguém. A sua Palavra é proposta de vida, desafio à nossa responsabilidade, viver a partir dela é condição para que a nossa existência seja feliz e útil para os irmãos.