D. João de Oliveira Matos


Vivia-se então, a segunda e terceira década do século passado (1910-1930). A Igreja inteira e toda a espiritualidade em geral era desprezada, questionada, relegada para segundo plano e perseguida. Sempre foi assim. Nessa altura, em Portugal e de modo singular na nossa diocese da Guarda muitas foram as vítimas da indiferença e atroz perseguição. Tempos muito difíceis.
Ressoavam, nessa altura, o lema dos Papa S. Pio X: “Instaurare omnia in Christo (Renovar todas as coisas em Cristo)”, e o lema do Papa Pio XI: Pax Christi in regno Christi (Paz de Cristo no reino de Cristo).
A Igreja, por sua vez, centrava os seus ensinamentos sobre o concílio Vaticano I (1869-1870) e revia-se nas questões teológicas sobre o papado, o episcopado e outros privilégios petrinos. Muito se falava da infalibilidade pontifícia e não sei que mais. Ser igreja era pertencer ao clero e reger o povo de Deus. A Igreja perspetivava-se sobretudo na dinâmica de ser uma ‘sociedade perfeita’. Ser clero era verdadeira promoção social. A noção de Igreja como Povo de Deus não existia. Faltava o concílio Vaticano II e muito tempo para que tal acontecesse.
É interessante como na nossa diocese surgiram homens de vulto que sentiram na carne a perseguição, o desconforto, a calúnia por serem verdadeiros pastores num serviço totalmente novo. Como exemplo recordo o grande bispo D. Manuel Vieira de Matos.
Também no jovem sacerdote P. João de Oliveira Matos 28/03/1903, futuro bispo auxiliar da Guarda, (25/07/1923) se revelou a prioridade do serviço, do estar ao lado de quem sofria, do ser solícito para com os simples, sempre ao lado dos fracos e carenciados dando particular atenção aos mais afastados da Igreja e aos pecadores. Mais ainda, nas suas visitas pastorais deparou-se com almas, “homens e mulheres de tanta grandeza moral, verdadeiros jardins de virtude”, com quem ficou deveras abismado.
Estas pessoas seriam o ‘fermento novo’ dentro das paróquias e da diocese Guarda. Com elas se lembrou de fundar algo novo. Porque não fundar “Uma Associação de almas apaixonadas de Jesus, que, pudessem substituir a reparação que em Portugal se fazia quando havia Ordens Religiosas”?
Esta ‘Pia Associação’ de fiéis, por ele fundada em (11/02/1924), vai no encalce de muitas outras existente e aprovadas na Igreja e depressa se tornou a resposta para o seu sonho.
A ‘Obra’ do jovem bispo D. João de Oliveira Matos radica na dignidade batismal sem excluir quem quer que seja, no sacramento da Eucaristia, alimento necessário para o crescimento e intimidade com Cristo Jesus, na santificação pessoal e na santificação dos que andam longe de Deus. A subsequente adoração e caridade para com todos, fazem parte integrante do Louvor a Deus, do Servir e do Reinar com Cristo. Neste sentido, se dá vigor à recomendação de S. Paulo na primeira carta aos Coríntios (Cor.15,25): “É preciso que Jesus reine”. Face ao exposto, torna-se elucidativa a Acta fundante da Liga dos Servos de Jesus redigida em 17 de fevereiro de 1924. Convido-vos a lê-la.
Sou tentado a escrever que, nesta perspetiva, se dava um passo novo e com uma nova dinâmica. O que desejava o Papa Pio XI, com as encíclicas Quas Primas (Como o Primeiro, 11/12/1925), com a qual foi estabelecida a festa de Cristo Rei, e Miserentissimus Redemptor, (Redentor Misericordioso, 8 /5/1928), sobre o culto ao Sagrado Coração de Jesus, em D. João, quer o reinado de Jesus Cristo, quer o culto ao Coração de Jesus, expressar-se-iam mediante a conversão pessoal, pela simplicidade, pela humildade, pelo cumprimento dos mandamentos enquanto filhos de Deus, sem se omitir a reparação e a oração pelos pecadores.
Por isso e desde sempre, aquilo que define a espiritualidade da Liga e a espiritualidade do verdadeiro Servo de Jesus consigna as seguintes vertentes: Ser e fazer a Vontade de Deus uno e trino; Fidelidade aos compromissos batismais e à filiação adotiva; Viver como ‘Almas Apaixonadas’ de Jesus eucaristia; Perseverar numa dinâmica de verdadeira Vocação laical e/ou no estado de sua pertença à Igreja como tal; a “universalidade” e o modo de pertença eclesial de cada um dos seus membros são indispensáveis na verdadeira espiritualidade da Liga; Apostolado sincero no testemunho de vida; Oração pelos pecadores e pela sua conversão; Prioridade ao perfeito cumprimento dos ‘deveres de estado’ e vivência do momento presente; Todos os seus membros constituem uma ‘Família’ verdadeira; Vivência das virtudes cristãs.
É minha convicção: Urge à Liga dos Servos de Jesus, se quiser permanecer como Liga para o nosso tempo, tal como o Santo que lhe deu origem o é, que, vivendo perfeitamente enquadrada na história, retome a dianteira em prontidão e generosidade de resposta, na fidelidade ao carisma; faça suas as preocupações da Igreja; seja um caminho singular, tal como o idealizou e viveu o Fundador e, diligentemente, o percorra, no meio das adversidades, sempre norteada pela sua identificação com o Mestre, o Servo dos Servos.
Amar, Obedecer, Santificar, Salvar, Servir e Reinar, “eis o fim que nos liga e nos prende de olhos fitos no Céu e na Cruz. Nossa alta nobreza é servir, (…) a Deus, Criador, Redentor, pois, servi-Lo a Ele é reinar”.
Se assim se canta, cantemo-lo com a nossa vida.