Pontos de Vista 1 - Em artigo publicado no Diário de Notícias, no passado dia 25 de Outubro, António Barreto escreveu o seguinte: “Costa, que até hoje se vangloria de ter um acordo, por enquanto secreto, com o Bloco e o PCP, formará governo, só socialista ou mal acompanhado, que deve passar no Parlamento. Será um governo refém e de maioria dependente. Mas passará. Para uma vida breve. O PS e António Costa ficaram prisioneiros de uma ambição menor e de dois partidos que precisam dele para o destruir. Ao julgar que os abraça, o PS vai dissolver-se nos seus aliados de hoje, do momento, mas inimigos de sempre”. Em paralelo, lembrei-me de uma comunicação que, há cerca de quinze dias, recebi de um amigo que muito prezo pela coerência e pela coragem. Ali me dizia que lhe apetecia recordar dois ditados populares: “quem semeia ventos, colhe tempestades” e “quem com ferro mata, com ferro morre” (politicamente falando, claro está)! E concluía assim: “Costa “defenestrou” Seguro. Agora vai “abocanhar” o cargo de 1º Ministro, apesar de derrotado nas urnas. Atenção: não falo em “roubar”, porque não uso tal palavra num contexto desta natureza; também não falo em “usurpar”, uma vez que, cumpridos que sejam os devidos pressupostos, a indigitação de Costa para 1º Ministro é perfeitamente conforme com o texto constitucional. Mas o que Costa não pode, por muito que lhe custe (mas será que lhe custa?), é impedir que lhe sejam colados os rótulos de oportunista, ambicioso e nada, mas mesmo nada, confiável”. A questão, acrescento agora, tem a ver com decência, com ética, com legitimidade e com respeito pelo eleitorado (por todo o eleitorado). 2 - Estas considerações constituíram o detonador da presente crónica, agora que foi derrubado, como estava anunciado, o governo de coligação PSD/CDS. Na verdade, não foi uma; não foram duas; não foram três; foram quatro as moções de rejeição apresentadas. PS, BE, PCP e PEV, todos irmanados numa recusa unânime, manifestaram o seu propósito de fazer cair o governo empossado há onze dias. Também não foi celebrado um só acordo; nem sequer dois; foram três os textos assinados por Costa com os partidos à sua esquerda. Mas, mais grave do que esta multiplicação de “posições conjuntas” (as partes nem sequer ousaram chamar-lhes “acordos”), foi a forma encontrada para a sua assinatura: à hora do almoço, à porta fechada, às escondidas, sem cobertura pelos meios de comunicação social, sem que à mesa ou, sequer, na sala, pudessem estar presentes os subscritores dos diferentes textos. Ou seja: os (as) representantes do BE tiveram de sair da sala para entrarem os do PCP (terão lepra ou ébola?). Péssimo sinal! Quando os representantes dos partidos das esquerdas radical e ortodoxa, que se propõem suportar o governo minoritário do PS, derrotado nas urnas, se recusam sentar-se à mesma mesa, o que pensar desta complexa teia de arranjos engendrada pelas direcções dos partidos das esquerdas? Penso não ser ousada a previsão de que não se lhe augura um radioso futuro! No fim, quando chegar o momento do apuramento de responsabilidades e verificados os resultados, ver-se-á qual a força partidária que mais perdeu. Mas não é essa a questão que mais importa. O que é, de longe, mais relevante será o balanço para o país e para os portugueses. E, também nesse aspecto, as perspectivas são infelizmente muito preocupantes. Para fundamentar esta previsão, limito-me a enunciar três aspectos que marcam o actual cenário político: em primeiro lugar, parece que iremos ter um governo de um partido que o povo não escolheu para governar e que derrotou fragorosamente nas urnas; em segundo lugar, em face do texto dos “(des)acordos” assinados, entendo que o governo PS não será apoiado, mas apenas suportado, pelo BE e pelo PCP; por fim, é, desde já, evidente e notória a recusa de diálogo a três, não aceitando o PCP sentar-se à mesa com o BE. Ou seja, parece-me inevitável que, a breve prazo, os desentendimentos entre os “acordantes” vão surgir inevitavelmente. E o que é grave e, nestes termos, irresolúvel, é a total dependência, para as questões acordadas mas também para todas as outras , do PS em relação, sempre, aos outros partidos ora convergentes. 3 – A direita, chamemos-lhe assim, governou assim-assim. Para as mentes benévolas ou eleitores fidelizados, bem; para os que se deram ao trabalho de pensar um pouco, informar-se e complementar isso com conhecimentos e alguma prática em política, governou como pôde. Com limitações orçamentais gravíssimas, à beira da bancarrota, sem crédito e com défices insuportáveis, com um programa de austeridade duríssimo imposto pelos credores, pouco podia fazer para salvaguardar, nos seus proventos e rendimentos, a faixa maioritária da população contribuinte – a chamada “classe média”. Se para alguns foi um trambolhão “na real” depois de uns anos de irresponsável despesismo, para outros foi, de facto, um drama imerecido: falências, desemprego, penhoras, reduções drásticas no essencial – saúde, educação, até o próprio sustento. Consta, no entanto, que “levantámos cabeça” – coleccionaram-se indicadores que parecem atestá-lo. Facto é que “despedimos” a troika, as exportações aumentaram, o défice desceu e o desemprego também (paulatinamente é certo, mas parecia que o movimento descendente ganhava ritmo e a economia iniciava uma recuperação). A informação económico-financeira disponibilizada fazia acreditar num recobro, num fidelizar de créditos – renascia a confiança. De fora, começávamos a ser vistos como parceiros e já não como clientes, irmãos gémeos dos gregos falidos. Foi tudo impecável? Não, houve pecados e muitos. Uns menores, outros imperdoáveis. Uns endémicos, outros suspeitados, outros ainda perfeitamente impensáveis. Mas alguma coisa mudara efectivamente: passaram a ser públicos e notórios. Surgiram assim também sinais positivos em matéria de luta contra a corrupção e o nepotismo, e muita dessa lama e dessas águas pútridas veio à tona. Não para prazer dos necrófagos moralistas mas porque a lei, como o Sol, é para todos e, em democracia, todos lhes estão sujeitos e todos deles gozam. Tudo perfeito, então? Nem por sombras – muito a fazer, a implementar e/ou a corrigir e, nos casos bem sucedidos, a consolidar. A pedir espaço de manobra, convicção e tempo. E crédito. E apoio eleitoral. E vozes no parlamento. Vieram mas não chegaram. Acusada de, durante quatro anos ter “martirizado” o povo, e de, num inexplicado sadismo, se propor continuar a massacrá-lo, num teimoso amor à austeridade (que, confesso, não se entende em quem queira ganhar eleições…!), a chamada direita passa agora o testemunho – e mais 7.800 milhões de euros de folga, nos cofres – aos novos “Senhores de São Bento”. Chegados sem sombra de pecado…? Também não! Começando com um sequestro descarado do voto de milhões de portugueses, brandindo alianças e promessas falaciosas, serão reféns dum futuro que por certo não os irá absolver! 12 de Novembro de 2015