O silêncio e a sobriedade que têm caracterizado os últimos anos da vida do Papa emérito Bento XVI mais enobrecem o seu gesto de renúncia, anunciado a 11 de Fevereiro de 2013, com efeitos a partir do dia 28 do mesmo mês.

Numa decisão inédita em quase 600 anos de história na Igreja Católica, Bento XVI tem mantido uma vida reservada no Mosteiro ‘Mater Eclesiae’, do Vaticano, praticamente sem aparições públicas.
Só alguém com muita sabedoria e sentido de responsabilidade seria capaz destes gestos corajosos e históricos. Escutei, quase incrédulo, as palavras com que anunciou a renúncia, firmada na debilidade física. “Depois de ter examinado repetidamente a minha consciência diante de Deus, cheguei à certeza de que as minhas forças, devido à idade avançada, já não são idóneas para exercer adequadamente o ministério petrino”, disse naquele Dia Mundial do Doente e memória litúrgica de Nossa Senhora de Lourdes.
Num misto de ternura e sabedoria, Bento XVI rompia com uma tradição secular e abria caminhos de esperança e renovação.
Desde o início do Pontificado, em 19 Abril de 2005, faz hoje 13 anos, que Bento XVI mostrou uma enorme grandeza de espírito e uma humanidade desmedida. As palavras sentidas que proferiu nesse dia, na Praça de S. Pedro, marcaram os anos de pontificado. “Depois do grande Papa João Paulo II, os Senhores Cardeais elegeram-me, simples e humilde trabalhador na vinha do Senhor”, disse Bento XVI. E, como simples e humilde trabalhador, teve o discernimento e a coragem para assumir, sem medo ou vergonha, a sua debilidade física. Agradeceu e pediu perdão: “Caríssimos Irmãos, verdadeiramente de coração vos agradeço por todo o amor e a fadiga com que carregastes comigo o peso do meu ministério, e peço perdão por todos os meus defeitos”. Palavras sábias e humildes, distintivas dos grandes homens.
Esta semana fica também marcada pela comemoração dos 91 anos de idade de Bento XVI. De acordo com as informações avançadas pelo Vaticano, no dia 16 de Abril, o Papa emérito festejou o aniversário “num clima tranquilo e familiar”, juntamente com o seu irmão mais velho, monsenhor Georg Ratzinger, no Mosteiro ‘Mater Ecclesiae’. Da comemoração fica também o tributo da Banda da Guarda Suíça Pontifícia que executou algumas obras em homenagem ao Papa emérito e o oferecimento da Missa presidida pelo Papa Francisco, na Casa de Santa Marta.
Este Homem orante continua a sua missão através do silêncio, no recolhimento da vida. E lembra-nos: “Não tenhamos medo de criar o silêncio fora e dentro de nós, se quisermos ser capazes não só de ouvir a voz de Deus, mas também a voz de quem está ao nosso lado, a voz dos outros”.
Na confusão e no barulho deste mundo em que vivemos, hoje, mais do que nunca, temos de dar tempo ao silêncio, para nos sabermos ouvir uns aos outros.