Maio findou.

O mês dedicado pela devoção cristã popular à Virgem Santa Maria decorreu por entre várias preces sobretudo a oração do terço, procissões, diversas romagens a santuários, capelas, monumentos, deixando atrás certa nostalgia mitigada só pela lembrança das festas litúrgicas que o decorrer do calendário nos trará de novo: a Senhora da Assunção, a Natividade de Maria, a Senhora do Rosário, a Imaculada Conceição, Santa Maria Mãe de Deus, sem contar memórias contínuas que aparecem pelos meses adiante ou serão prescritas por costumes tradicionais de tantas paróquias.
Depois, em Outubro, será o mês do Rosário, para se meditarem, de forma mais calma, os mistérios e cenários principais da existência terrestre da Mãe de Deus.
Na piedade portuguesa já alargada por quase todo o mundo pelos migrantes , fica-nos ainda para celebrarmos o acontecimento extraordinário das aparições na Cova da Iria tão do agrado da nossa gente. E como, no  último treze de Maio, principiou já a sua preparação oficial em ordem à comemoração do primeiro centenário, a efectivar em 2017, procurar-se-á reavivar na alma portuguesa a tradição profunda do amor já quase natural que circula nos nossos costumes religiosos difundidos também pelas populações tocadas pela religiosidade lusitana.
Desta vez, em lugar de peregrinarmos, em grandes multidões, para a Cova da Iria, onde se venera a imagem tão dilecta da Senhora do Rosário de Fátima, esperá-la-emos nas nossa terras, onde ela será trazida em romagem para nos recordar a sua comunicação, avisos maternos e recomendações em ordem à nossa felicidade de paz já neste mundo e de glorificação eterna no céu.
Julga-se, por vezes, ao estudarem-se as palavras da Virgem consistirem apenas nas advertências espirituais em ordem à vida moral e piedosa, como se a nossa vida terrestre fosse alheia ao seu coração de Mãe. Ora, para além dos conselhos e exortações em ordem à salvação, assinalamos, na mensagem da Senhora, sinais e avisos respeitantes à nossa existência, neste mundo.
A mensagem de Nossa Senhora trata da paz do mundo não só visando a grande guerra, então a desenrolar-se, mas ainda avisando os homens de outra conflagração ainda mais cruel e desumana que acontecerá, se não mudarem de atitudes e procedimento nas relações recíprocas desumanas, interesseiras e tão invejosas. Reclamou a Senhora  o respeito mútuo, a solidariedade, a cooperação e entreajuda, consoante as necessidades da terra e as exigências recíprocas da humanidade, sem ter em vista as vantagens interesseiras e os egoísmos calculistas.
A conjuntura histórica dos anos terríveis do século passado deve ajudar-nos a entender o sentido das palavras da mensagem que foi comunicada em Fátima. O momento social, político e até religioso de então com as consequências horrorosas e terríveis registadas pela história deverão ajudar-nos a compreender os avisos celestes e a interpretar, segundo as palavras evangélicas trazidas por Cristo, pois a sua origem é idêntica e se dirige ao mesmo conjunto de pessoas imersas em análogas circunstâncias, o seu sentido e finalidade.
Na homília da solene dedicação do santuário de Nossa Senhora de Fátima, na Polónia, o Papa João Paulo II sintetizava a aplicação das recomendações de Nossa Senhora aos homens de hoje nestas palavras: “Esta mensagem destina-se de modo particular aos homens do nosso século marcado pelas guerras, pelo ódio, pela violação dos direitos fundamentais do homem, pelo enorme sofrimento de homens e nações e, por fim, pela luta contra Deus até à negação da sua existência”.
O horror das calamidades de hoje não aparece como impiedade moderna a instalar-se sobre a sociedade humana que se vai desfazendo pouco a pouco, por a falta de critérios justos em ordem à convivência de todos os que vão desfazendo o respeito recíproco para dar espaço ao amor próprio e à ânsia de engrandecimento de cada um, sem atender aos direitos dos outros?
Os conflitos de hoje vão-se alargando à medida da indiferença pelo outro. E fica-se num isolamento horrível, numa carência de alguém que nos acolha nas necessidades pessoais.
A Virgem de Fátima bem avisou  os homens e lhes apontou a solução dos problemas hodiernos que lhe destruíam a vida colectiva.
A mensagem de Fátima abre as portas para a nova evangelização que vinda do coração de Nossa Senhora pretende animar e encarecer o futuro, induzindo-nos à mudança no pensar e agir em relação à caridade e entreajuda.
Já partiu da Cova da Iria, no dia treze de Maio, para a diocese de Viseu, onde está a ser recebida com profunda devoção e autêntica piedade. Percorrerá sete dioceses e no dia 27 de Setembro, pelas 15 horas, será recebida na cidade da Guarda donde partirá em direcção a Seia, no dia 29. Até a 11 de Outubro permanecerá entre nós, concedendo-nos a graça de olharmos a sua figura para meditar a sua mensagem e prepararmo-nos com verdadeira afeição e piedade, a fim de nos prepararmos para as festas do seu primeiro centenário.