Porque a Ressurreição de Cristo é o facto central da fé cristã, sua origem e fundamento, donde dimana não só a raiz da nossa crença mas ainda a firmeza e o apoio da recta conduta, desde os tempos mais recuados do cristianismo, foi sempre o esteio do viver próprio do baptizado e, por isso, celebrada e vivida continuamente.


Daqui, o não bastar um dia nem uma semana para o solenizar, mas a sua comemoração veio a alongar-se por uma cinquentena de dias até ao termo das celebrações dos mistérios do Salvador, o Pentecostes, onde se glorifica o nascer e o surgir da Igreja.
Parecerá um exagero. Mas tal acontecimento alonga-se até hoje e continua presente em cada momento da existência dos crentes actuais e dos que hão-de vir. Se é no Pentecostes, que a plenitude do mistério pascal faz terminar a totalidade histórica da missão do Redentor, ali nasce o mundo novo para continuar pelos séculos fora o favor e o dom trazido pelo Senhor à terra inteira.
Para a comunidade cristã, para a humanidade e todo o cosmos, o ambiente desta época irrompe em gozo, bem-estar e contentamento ao qual vemos associar-se a paisagem, no despontar da primavera, o horizonte, com a amplidão das horas, o bulício dos animais, mormente das aves, e a agradabilidade do clima já ameno.
Assim a Páscoa incentiva os fiéis para um viver espiritual mais profundo assente no mistério redentor, a exigir a todos a harmonia equilibrada das virtudes trazidas por Cristo.
É a reclamação interior pedida pela morte e confirmada pela ressurreição do Mestre divino que veio ensinar a todos um viver amável, sereno, benévolo e caritativo.
Por esta razão, o manter e propagar da fé cristã exige uma grande e perene atenção à figura e proceder do Senhor Jesus.
Nos tempos antigos, não se celebrava a vida pascal, com sua comemoração, uma vez só por ano, mas em todas as semanas. Logo no primeiro dia destas, a fim de colocar o cristão na ininterrupta lembrança do facto libertador do pecado e da morte, tal é o martírio e a ressurreição de Jesus, lembrava-se, com o esplendor litúrgico possível, a fim de jamais o esquecer, nas controversas questiúnculas deste mundo, e assim se perpetuar, durante todo o tempo, no seguimento das pegadas do seu modelo cabal que dera exemplo perfeito de todas as virtudes mormente da caridade.
Ressuscitados para uma consciência regenerada de vida, os crentes iriam, imitando o seu Mestre, a nova luz do mundo, pois “quem O segue não andará nas trevas mas terá a luz da vida”, tornando-se filhos de Deus.
A doutrina conciliar, ao discorrer sobre a liturgia, deixa-nos o autêntico sentido do tempo pascal, quando afirma: “os cinquenta dias que vão desde o domingo de Páscoa até ao domingo de Pentecostes hão-de ser celebrados com alegria e exultação como se verdadeiramente se tratasse de um só e único dia festivo, mais ainda, como um grande domingo”.
Na assembleia eucarística, tanto à semana como ao domingo, ao proclamar-se o prefácio próprio, aparecem, logo no início, os dois mistérios mais importantes da redenção: o holocausto libertador de Jesus e sua gloriosa Ressurreição, já que estes acontecimentos não poderiam existir um sem o outro. É nesta lembrança onde se abre a alegria sobrenatural que a comunidade cristã há-de viver, na sua fase terrena até chegar à plenitude do prémio prometido por Cristo aos que forem fiéis até à morte. Assim se efectuará a completa e feliz entrada na glória que ultrapassando a criação sujeita ao mal e tornada impura pelo pecado de Adão, logo no início da vida humana sobre a terra.
Deste modo chegamos à plenitude da acção divina a invadir toda as coisas criadas, refundindo-as e recolocando-as no projecto antigo projectado pelo Criador.
Esta doutrina firma-se, mais e melhor, nas expressões que chamam a Cristo Redentor Cordeiro pascal, lembrando o sangue derramado e posto nas ombreiras das portas dos judeus para que o anjo exterminador, ao passar pelas terras do Egipto para matar os primogénitos daquele povo, saltasse, isto é, dando um salto, para que não entrasse nos aposentos dos israelitas.
A comemoração deste acontecimento foi herdade pelos discípulos de Cristo, continuadores da antiga revelação, que a aplicaram à sua existência espiritual renovadora da humanidade que se apresenta bela e perfeita para fruir de novo a beleza e a maravilha do mundo criado em graça e perfeição a projectar-se para a felicidade sem fim.
Como, no acontecimento da Páscoa cristã, se planeia e traça este nosso destino glorioso, nada pode haver para o cristão mais convidativo à alegria esperançosa de um destino feliz. Por isso, a Páscoa é o acontecimento mais deslumbrante e radioso de toda a terra.