Tal como fora determinado, no domingo passado, encerrou-se, por entre exultação e júbilo,

o Sínodo sobre os grandes problemas da família, que inquietam o mundo e a Igreja. e esperam-se, com uma certa ansiedade, a apreciação decisiva e a análise atenta e comedida, como é costume, do Santo Padre.
A nós compete receber, com fé e respeito, todas as explicações, análises e considerações que ao Sumo Pontífice parecerem convenientes. Embora não costumem ser definições dogmáticas despertam, no entanto, ditames e normas para a fé dos crentes.
Nos último tempos, temos recebido vindos dos Papas muitos esclarecimentos e doutrina acerca do matrimónio. Recordemos a documentação do Vaticano II e do Catecismo da Igreja Católica, a Exortação Apostólica dobre a Família de João Paulo II, Carta às Famílias do mesmo Pontífice.
Fundamental documento desta matéria será a Gaudim es Spes com doutrinação profunda, embora resumida. Cite-se apenas uma introdução: “O bem-estar da pessoa e da sociedade humana e cristã está intimamente ligado com uma favorável situação da comunidade conjugal e familiar. Por este motivo, cristãos, juntamente com todos os que têm em grande apreço esta comunidade, alegram-se sinceramente com os vários factores que fazem aumentar entre os homens a estima desta comunidade de amor e o respeito pela vida e que auxiliam os cônjuges e os pais na sua sublime missão”.
Para não se tornarem demasiadas as citações permita-se-nos apenas uma do Catecismo: “Em nossos dias, num mundo muitas vezes estranho e até hostil à fé, as famílias crentes são de primordial importância, como focos de fé viva e irradiante. É por isso que o Concílio Vaticano II chama à família, segundo uma antiga expressão ‘Igreja Doméstica’. É no seio da família que os pais são ‘pela palavra e pelo exemplo’ para os seus filhos, os primeiros arautos da fé. no serviço da vocação própria e de cada um e muito especialmente da vocação consagrada”.
Nada de admirar a preocupação notável da pastoral da comunidade eclesiástica, através dos séculos, debruçada sobre as famílias, quando o exemplo da Bíblia e o proceder do grande Mestre Jesus Cristo incentivam o povo cristão a tanto.
Quem lê frequentemente os Livros Santos, bem sabe quanto é querido o Matrimónio pelo Criador e quantas vezes, tanto no Antigo como no Novo Testamento, o homem é chamado não apenas a valorizar a Palavra divina na sua mente como ainda no seu proceder quotidiano. O próprio S. Paulo apela para o facto da criação da humanidade se ter realizada na dupla de homem e mulher e aos dois se entregar o crescimento da humanidade que, ele próprio considera misteriosamente velado no amor de Cristo pela sua Igreja, restabelecendo uma perfeita unidade tanto no campo natural como no campo místico, a formar a realidade que ele chama grande mistério.
O matrimónio serve ao Apóstolo para estabelecer mais radicalmente o mistério de Cristo e da sua Igreja numa realidade mística e sobrenatural, donde a teologia vai definir a sacramentalidade do matrimónio efectuado entre cristãos.
Deste modo, se o homem e a mulher casados vivem o seu estado conjugal na verdade de uma fé selada pelo baptismo, transformam-se numa verdade sacramental, são eles mesmos na concretização do seu viver um sacramento, sinal da graça e vivência, na prática dos seu quotidiano, do mesmo dom divino.
Assim se depreende ser o matrimónio cristão realidade terrena e sobrenatural fundada no querer de Cristo a viver na prática corrente do existir humano. Por isso, a Igreja, através dos séculos, tem acompanhado, com a sua preocupação específica, o crescimento vital dos matrimoniados em Cristo e na Igreja, sem esquecer a dimensão temporal e terrena.
Devemos compreender que o estado matrimonial não existe, como facto natural, em estado puro, uma vez que foi elevado ao plano do sobre-humano.
Desta visão, obrigados somos a concluir que a intromissão da Igreja na vivência matrimonial tem a sua base na vontade divina que se comunicou de uma forma única ao ser e operar humanos. Deste modo, ninguém pode estranhar a preocupação e o cuidado mostrados pela autoridade eclesiástica no domínio da condução humana dos crente matrimoniados.
Assim o matrimónio é ao mesmo tempo, dom e amor onde se juntam e projectam a actividade divina e humana, no mesmo mistério vivo e partilhado.
Aguardemos, com jubilosa esperança, a conclusão pontifícia deste tão importante sínodo.