“São uns vândalos!”

“Partem tudo, estragam tudo, são uns vândalos!”. O autor desta afirmação, que já tem pelo menos duas décadas, foi um funcionário de uma Escola Básica 2º e 3º Ciclo, ali para os lados da Covilhã, dando assim conta do mau comportamento de alguns alunos meio travessos que não sabiam respeitar os equipamentos que estavam ao serviço de todos. Aquele equipamento de ensino tinha sido inaugurado há relativamente pouco tempo mas os estragos já eram mais que muitos, nomeadamente nas secretárias e numa ou outra porta. Gravar o nome nas mesas de trabalho e estudo sempre teve adeptos no meio escolar. Era uma marca para a vida, mas que não deixava de provocar sérios constrangimentos para quem viesse a seguir. Vem este episódio a propósito das muitas manifestações, que dizem ser anti-racistas e com muitos outros atributos, mas que acabam por provocar o efeito contrário do desejado. A morte de George Floyd, de 46 anos, às mãos de um polícia norte-americano, por lhe ter pressionado o pescoço com um joelho, durante cerca de oito minutos numa operação de detenção, apesar de a vítima dizer que não conseguia respirar, tem dado azo a muitas cenas de violência e falta de bom senso. Os efeitos desta escalada de anti-racismo, mas com muito ódio à mistura, também foram sentidos em Portugal e nem a estátua do defensor dos povos indígenas, o Padre António Vieira, escapou à fúria e à ignorância de alguns manifestantes. Este religioso, filósofo, escritor e orador português da Companhia de Jesus, foi uma das mais influentes personagens do século XVII em termos de política e oratória. Destacou-se como missionário em terras brasileiras onde defendeu incansavelmente os direitos dos povos indígenas combatendo a sua exploração e escravização e fazendo a sua evangelização. E mais, o padre António Vieira defendeu os judeus, a abolição da distinção entre cristãos-novos e cristãos-velhos, e a abolição da escravatura. Criticou ainda severamente os sacerdotes da sua época e a própria Inquisição.O gesto obsoleto foi duramente criticado pelo Presidente da República considerando-o “verdadeiramente imbecil” contra a memória do “maior orador português” e “um homem progressista” para a sua época. “Quanto ao padre António Vieira, o que foi feito demonstrou, não só ignorância, como imbecilidade” considerou Marcelo Rebelo de Sousa.Não há dúvida que também hoje podemos afirmar como funcionário da dita escola: “Partem tudo, estragam tudo, são uns vândalos!”. De anti-racistas parecem ter muito pouco.