Desde os tempos antigos do Velho Testamento, a esperança na ressurreição da vida imorredoura vai-se introduzindo, pouco a pouco,

no espírito do crente que até, as portas da morte, podia afirmar a certeza herdada na tradição dos seus maiores. No momento derradeiro do seu existir terreno, um dos Macabeus assim invectivou o carrasco que o ia matar por não obedecer às leis ímpias de el-rei: “Tu extingues-nos esta vida presente. Mas o Rei do mundo nos ressuscitará para a vida eterna a nós que morremos por suas leis”, conforme conta o respectivo livro.
Quando apareceu Jesus na terra, apresentou-Se, esclarecendo a sua identidade: “Eu sou a ressurreição e a vida, aquele que acredita em Mim, ainda que morra, viverá” e, desde então, o ser partidário de Cristo é ser testemunha da sua existência de Ressuscitado.
Mesmo que a certeza deste Senhor redivivo nos indique o nosso futuro, ao olharmos os acontecimentos da terra, precisamos de nos suster na esperança e aceitarmos o Credo da nossa fé, conduz-nos a proclamarmos, na alegria e na festa, o acontecimento do ressurgir da morte operado em Cristo.
Ao pensarmos no termo da nossa vida mortal ou ao reflectirmos o final de tantos conhecidos e amigos que já partiram para a eternidade, havemos de lembrar a palavra escrita pelo Apóstolo: “É digna de fé esta palavra: se tivermos morrido com Cristo, também com Ele viveremos”.
Fundamento no viver cristão, certeza do existir no além, a ressurreição dos mortos desperta nos fiéis palavras novas desconhecidas no campo dos incréus.
Nas vésperas do seu martírio, Inácio de Antioquia, tão sábio e convicto, deixa escritas cartas enviadas a quem desejava livrá-lo do martírio, e aí poderemos descobrir a sua convicção profunda: “É bom para mim morrer em Cristo Jesus (...) É a Ele que eu quero, Ele que ressuscitou para nós. Estou prestes a nascer (...) Deixai-me receber a luz pura; quando lá tiver chegado, serei verdadeiramente homem”.
Desde o século primeiro até hoje, as convicções do cristão fundam-se neste credo que jamais se apartará das certezas mais exactas e fundamentadas. Por isso, ninguém pode admirar-se da alegria que inunda, desde sempre, a festividade da Páscoa que, mesmo nas afrontas da vida, nas torturas do existir humano, nas dores dos acontecimentos aflitivos, invade as assembleias cristãs.
Através dos tempos, a transmissão desta verdade foi lenitivo, quando o falecimento de alguém deveras amado mergulhou na tristeza e nas lágrimas e deu força a quantos cantam a vitória derradeira e total, na firmeza do pensar, ao dizerem a sua despedida na singeleza de um ‘até logo’, pois acreditam que, mais dia menos dia, se vão encontrar de novo.
“Se Cristo não ressuscitou é vã a nossa pregação, é vã a nossa fé” – escreve o Apóstolo, a atestar que sem ressurreição nem há Cristo vivo nem esperança para quantos acreditam na existência do além.
E confirma-se mais e mais o facto de Jesus ter voltado à vida não terrena mas celeste. É o sepulcro vazio, a pedra tumular removida, as variadas aparições a mais de quinhentas pessoas, algumas das quais bem desconfiadas do Senhor ressuscitado que obrigam Jesus a mostrar as chagas das mãos e do lado, como fez a Tomé e dizer-lhe: “Mete aqui o teu dedo e vê as minhas mãos; aproxima ainda a tua mão e mete-a no meu lado”.
Tão importante este acontecimento se tornou para a comunidade cristã, que desde os tempos dos Apóstolos, se reunia, todos os primeiros dias da semana, para celebrar a vitória do Senhor sobre a morte e efectivar o seu memorial, aceitando a sua palavra: “fazei isto em memória de Mim”.
E a pregação da Igreja jamais se desviou desta certeza. Assim dizia S. Basílio: “Porque é, de alguma maneira, imagem exemplar do tempo futuro o domingo, os cristãos, nesse dia, não rezam de joelhos, não fazem jejum nem abstinência, mas principiam a alegria da eternidade”. “Eis o dia que faz o Senhor, nele exultemos e nos alegremos” – canta muitas vezes a assembleia dominical, a recordar a todos os crentes a atitude básica do seu comportamento, ao comemorar o dia em que Jesus ressuscitou.
Por entre as tristezas e dificuldades, os sofrimentos e perplexidades da existência há que renovar a alegria pascal constantemente e assim compreender ser o júbilo, a certeza do triunfo sobre a morte, a conduta ideal de todo o tempo, a vida no Senhor, marcando o acontecimento da sua ressurreição como sacramento da Páscoa, a prolongar-se pelo tempo além, conforme a palavra: “Fazei isto em memória de Mim”.
É por este motivo que se torna forçoso evangelizar o domingo e fazer dele o memorial do Senhor redivivo e presente no meio de nós.