A Guarda, apesar de nunca ter sido tão falada e tão badalada como agora, nos meios de comunicação social, aparenta sinais evidentes de despovoamento e perda de originalidade e identidade.


Ao êxodo populacional que parece não ter fim, bem vincado no encerramento do comércio tradicional e no crescente despovoamento das aldeias, junta-se a crescente degradação do património construído.
Sobre a Guarda, Virgílio Afonso escreveu que “as pedras dos seus monumentos e dos fragmentos da sua fortaleza, respiram história, cultura, fé, patriotismo, tradição, enquanto nas suas ruas mais características se desenlaça um bucolismo cheio de poética ingenuidade e nostalgia, revérberos, talvez, de lirismos imbuídos na sombra crepuscular de séculos”.
De facto, a cidade tem uma localização paisagística estratégica a partir da Torre de Menagem, que podia e devia servir de referência a quantos por aqui passam. A Guarda tem de valorizar o património histórico e monumental que constitui um dos seus motivos de orgulho e de evocação de um passado brilhante. A Sé Catedral, as igrejas, o que resta da muralha com as suas portas, as zonas medievais, o Mileu, a Senhora dos Remédios, os brasões, os imóveis dos séculos XVII e XVIII, chafarizes, cruzeiros, estatuária e solares, falam de um passado grandioso que o presente tem de saber manter e preservar.
Sobre a tão falada alteração do Largo da Misericórdia e zona envolvente enquadrada no concurso para a Requalificação Urbana do Eixo Central da Guarda, a memória descritiva diz que “o Largo João de Almeida, também denominado Largo da Misericórdia, assume um papel central no quotidiano dos guardenses”. Acrescenta que “há várias décadas que este espaço não é alvo de qualquer requalificação”. A proposta apresentada pela autarquia “prevê o redesenho de todos os pavimentos desta área, de modo a aumentar a largura dos passeios, permitindo uma vivência mais agradável e potenciando, desde logo, os magníficos edifícios que enquadram este magnífico espaço”. Disciplinar o estacionamento e o trânsito automóvel, reformular totalmente o espaço (em frente à Igreja da Misericórdia), criar uma grande praça que funciona em diversos patamares de modo a aumentar a área de utilização pública criando um anfiteatro ao ar livre e libertando a circulação entre a Torre dos Ferreiros e a zona central, são outras das propostas apresentadas na memória descritiva.
Quem ler com atenção as justificações apresentadas pode ser induzido em erro e imaginar grandes atropelos, nas zonas referidas. Infelizmente não é assim que acontece pois há momentos em que os lugares disponíveis para estacionamento são mais que muitos e não se vislumbra vivalma. As requalificações não podem ser pensadas em favor de determinados acontecimentos que passam com o tempo, mas antes a pensar no bem comum.
Apesar de se falar em requalificação (conjunto de actividades que visam melhorar uma zona pública a nível urbanístico, ambiental, paisagístico, etc.) a memória descritiva, para este sítio da cidade, suprime o existente para criar tudo de novo.
Neste processo, a Guarda de hoje e do futuro tem de se orgulhar da Guarda de ontem. Torna-se assim imperioso saber adaptar sem destruir, saber modernizar sem apagar a memória.
No poema “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”, Luís de Camões refere que “do mal ficam as mágoas na lembrança, e do bem, se algum houve, as saudades”.