Foi há cinco séculos, exactamente a 28 de Março de 1515, que, em Ávila, no seio de uma família fidalga nasceu Teresa de Ahumada,

que viria a ser a primeira doutora da Igreja. Seu pai, foi Alonso Sanchez de Cepeda, ainda descendente de judeus, e sua mãe, dona Beatriz de Ahumada. A quatro de Abril, nesse ano, quarta-feira santa, recebeu o baptismo. A sua casa, embora grande albergava bastantes pessoas: os pais, doze irmãos e alguns empregados domésticos.
Apesar de, naquela época, as meninas  não serem  mandadas à escola, esta nobre, ainda criança, aproximava-se dos irmãos, quando estes recebiam, em sua casa, como pertencia aos nobres de então, as lições iniciadoras da vida intelectual. E logo se pôs a ler sobretudo novelas de cavalaria. Ela mesma escreve, ainda muito nova, ter escrito uma ‘novelazita’ que bem depressa foi deitada na fogueira.
Aos catorze anos ficou, tristemente, órfã de mãe.
Tocados por este infortúnio, até os irmãos começam, um a um, a partir para as Índias Ocidentais. Também Teresa abandona o lar, tornando-se aluna interna do Colégio de Santa Maria da Graça, fora de portas da sua cidade.
Voltará a casa aos dezassete anos.
A 2 de Novembro de 1535, cheia de coragem, depois de escutar o apelo divino, foge do lar paterno, ainda escuro, bate à porta do mosteiro carmelita da Encarnação de Ávila enquanto os sinos da cidade, com toque pungente, convidavam os fiéis a lembrarem os seus mortos. Aí começou a preparar-se para fazer os votos de obediência, pobreza e castidade que se tornaram definitivos, passados dois anos, “com tão grande alegria de ter aquele estado que jamais me faltou”.
Peripécias de pouca saúde houve de sofrer, mais tarde. Voltou uns tempos para casa, a fim de se curar, coisa que se tornou mui difícil. Mas, obteve a saúde, nem sempre perfeita, devido, segundo ela escreve,  à protecção de S. José.
Nos tempos de doente, aproveitava para ler sobretudo livros de espiritualidade. Mesmo assim, a sua vida espiritual, no mosteiro, era frouxa e bastante descuidada, segundo a maioria das duzentas irmãs recolhidas nessa casa religiosa.
Um dia, porém, em 1554, diante de um Cristo muito chagado, fica tão perturbada, ao pensar a sua vida quase mundana, que reformou sua conduta. Acolhe-se à direcção espiritual , confiando-se sobretudo aos padres jesuítas e principia a fazer grandes progressos na vida de santidade, recebendo graças místicas extraordinárias, desde êxtases a visões. Progride extraordinariamente nas coisas de Deus e deseja comunicar suas experiências a outras religiosas.
Em Setembro de 1560, meditando em sua cela, toma a resolução de fundar um mosteiro reformado, seguindo a primitiva regra carmelita, com as normas e estatutos mais exigentes e consumados.
Neste tempo, sente-se apoiada por alguns sacerdotes que lhe apontam um sentido de perfeição capaz de ajudar as fundações com que sonha.
A pensar o futuro dos seus projectos, começa a anotar os métodos de sua oração, as dificuldades da completa entrega a Deus, as exigências da vida em comum e as dificuldades do mosteiro. Tais escritos simples, claros, ponderados e criteriosos irão granjear-lhe, de imediato, a celebridade que os tempos lhe aumentaram.
Desta forma, Teresa de Ahumada começou a ser designada como mestra espiritual e orientadora de milhares e milhares de pessoas quer leigas quer religiosas tanto do sexo feminino como masculino, nestes séculos volvidos, após o seu trabalho inicial de intérprete das influências de Deus nas almas que se entregam ao serviço divino de santificação.
O seu caminhar por muitas localidades onde funda mosteiros dão-lhe o epíteto de andarilha. Os inúmeros ensinamentos, conselhos, opiniões, pareceres, critérios dados verbalmente na direcção das suas pequenas comunidades concedem-lhe o título de mestra, os seus livros, simples e claros, práticos e doutos, prudentes e sabidos granjeiam-lhe o atributo de sábia e judiciosa, de ilustrada e doutrinadora, desde o seu tempo de vida até aos dias de hoje.
Sabemos ter sido o arcebispo de Évora, D.Teotónio da casa de Bragança, quem, a pedido expresso desta mulher lhe tratou de todo o trabalho de edição do seu primeiro livro impresso bem como das suas despesas.
Eis a mulher primeira a receber da Igreja o título de doutoura, a que sabe e ensina, não apenas no abstracto das existências humanas, mas no concreto de problemas, dúvidas, angústias e preocupações.
Ao evocar a figura desta Santa, na cerimónia em que lhe deu o título de Doutora da Igreja, o beato Paulo VI exclamou: “Vemo-la aparecer diante de nós como mulher excepcional, como religiosa que, coberta inteiramente pelo véu da humildade, da penitência e da simplicidade, irradia, à sua volta, a chama da sua vitalidade humana e do seu dinamismo espiritual, e depois como a reformadora e fundadora de uma Organização religiosa insigne e histórica, e escritora genialíssima e fecunda, mestra de vida espiritual, incomparável na acção. Como é grande, como é única, como é humana e como é atraente esta figura!”. Foi a 27 de Setembro de 1970, na basílica de São Pedro do Vaticano.
Agora, só nos resta aprender com ela a magnitude e profundidade de sua instrução e experiência.